Crise no Irã pode desencadear maior choque petrolífero da história, alertam especialistas
Crise no Irã pode causar maior choque petrolífero da história

Crise no Irã pode desencadear maior choque petrolífero da história, alertam especialistas

Quando os países árabes produtores de petróleo impuseram um embargo em 1973, em resposta ao apoio dos Estados Unidos a Israel durante a guerra do Yom Kippur, os preços do petróleo quadruplicaram, abalando profundamente a economia mundial. Mais de meio século depois, a relação entre conflitos no Oriente Médio e o preço do petróleo continua a sacudir a economia global de maneira ainda mais intensa e preocupante.

Disparada histórica nos preços

Desde que Donald Trump e Benjamin Netanyahu ordenaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro, e Teerã respondeu ampliando o conflito na região e fechando o estratégico Estreito de Ormuz, os preços do barril de petróleo dispararam de US$ 60 para quase US$ 120 em apenas um dia, registrando a maior alta já observada em um único pregão. Embora tenham recuado posteriormente, estabilizando-se em torno de US$ 90, a volatilidade extrema provocou pânico nos mercados financeiros e nos gabinetes governamentais ao redor do mundo.

Em uma tentativa aparente de acalmar os ânimos, o presidente americano Donald Trump realizou uma série de telefonemas para jornalistas, mas suas declarações foram marcadas por contradições e falta de clareza. "Tenho um plano para tudo, certo?", afirmou ele a um repórter do New York Post quando questionado sobre a alta do petróleo. À emissora CBS, declarou que a guerra "está praticamente terminada", mas, quando perguntado sobre prazos, respondeu de forma evasiva: "Não sei, depende. A conclusão está na minha mente, na de mais ninguém".

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O gargalo do Estreito de Ormuz

O fechamento do Estreito de Ormuz representa o coração desta crise energética sem precedentes. Rafael Pampillón, professor de economia da IE Business School, explica que este estreito é "o maior gargalo energético do planeta", por onde passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo consumido no mundo e 25% do transporte marítimo global de petróleo. Além disso, cerca de 30% do gás natural liquefeito (GNL) também transita por suas águas.

Antes do conflito, cerca de 37 petroleiros atravessavam diariamente o Estreito de Ormuz. Após o início das hostilidades, esse número caiu praticamente a zero. A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã afirmou que não permitirá a passagem de "nem um único litro" por essa rota marítima enquanto Israel e os Estados Unidos continuarem seus ataques. Em resposta, Trump prometeu que "morte, fogo e fúria" cairão sobre o Irã caso o fluxo de petróleo seja interrompido.

Consequências globais em cascata

O impacto desta crise energética já começa a ser sentido em diversos setores da economia mundial:

  • Transporte e aviação: O combustível para aviões disparou 72% em Singapura, atingindo um recorde histórico, com cerca de 37 mil voos cancelados desde o fim de fevereiro
  • Indústria petroquímica: Setor diretamente afetado, já que matérias-primas como plásticos, fertilizantes e fibras sintéticas derivam do petróleo
  • Indústria pesada: Produção de aço, cimento e alumínio, altamente intensiva em energia, sofre pressão imediata
  • Agricultura e alimentos: Aumento nos custos de fertilizantes e transporte impacta toda a cadeia alimentar

Omar Rachedi, economista e pesquisador da EsadeGeo, resume: "O choque começa na energia e na logística, mas acaba se espalhando para a indústria, os alimentos e os preços ao consumidor".

Países mais vulneráveis

As economias mais expostas a esta crise incluem:

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  1. Produtores do Golfo Pérsico: O Iraque viu sua produção cair cerca de 70%, de 4,3 para 1,3 milhão de barris por dia
  2. Importadores asiáticos: China, Índia, Japão e Coreia do Sul dependem fortemente do petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz
  3. Europa: Cada vez mais dependente do gás natural liquefeito (GNL), especialmente desde o início da guerra na Ucrânia
  4. Economias emergentes: Países com moedas frágeis e dependentes da importação de combustíveis

Os Estados Unidos, embora sejam atualmente o maior produtor mundial de petróleo e gás, não estão imunes. Rafael Pampillón alerta: "Se o preço internacional do petróleo subir de forma significativa, os consumidores americanos também sentirão o impacto no preço da gasolina e do diesel".

Repercussões políticas e eleitorais

Nos Estados Unidos, o preço dos combustíveis representa um dos indicadores econômicos mais visíveis para os eleitores, afetando diretamente o orçamento familiar. Para Donald Trump, que enfrenta eleições legislativas em novembro e estabeleceu como prioridade reduzir a inflação, a alta do petróleo ameaça diretamente sua narrativa econômica.

Estudos comparativos sobre choques petrolíferos anteriores mostram que aumentos no preço do petróleo reduzem sistematicamente as chances de candidatos que buscam a reeleição. Se a crise continuar durante o verão e o outono no Hemisfério Norte, "o impacto eleitoral para os republicanos em novembro provavelmente será negativo e nada desprezível", avalia Rachedi.

Impacto na América Latina

Na América Latina, os efeitos desta crise energética variam conforme o perfil de cada país:

  • Beneficiados: Exportadores líquidos de petróleo como Brasil, Guiana, Argentina e, com ressalvas, Colômbia
  • Prejudicados: Importadores de combustíveis do Caribe e América Central, além de Chile, Peru e Bolívia
  • Caso complexo: México, que embora seja produtor, importa grandes volumes de combustíveis refinados

O diretor da Saudi Aramco, maior petrolífera do mundo, já alertou para "consequências catastróficas" para o mercado global de petróleo se o fechamento do Estreito de Ormuz se prolongar. Enquanto isso, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou o envio de navios de guerra para a região, com o objetivo de escoltar navios comerciais assim que a fase mais intensa do conflito terminar.

O mundo enfrenta atualmente, nas palavras de especialistas, "a crise energética mais grave em décadas e, potencialmente, a mais séria desde os grandes choques petrolíferos dos anos 1970". Com vários elementos daquela crise histórica se repetindo - interrupções físicas no fornecimento, aumentos brutais de preços e instabilidade geopolítica extrema - a situação tem, de fato, potencial para se tornar o maior choque petrolífero da história.