Desânimo com a Copa 2026 une eleitores de Lula e Bolsonaro, aponta Datafolha
O interesse dos brasileiros pela Copa do Mundo de 2026 atingiu o menor patamar em décadas, segundo pesquisa do Datafolha divulgada nesta semana. O levantamento revela um cenário inédito: mais da metade da população não pretende acompanhar os jogos do torneio, e esse desânimo atravessa a polarização política, unindo eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro no mesmo time do desinteresse.
Recorde histórico de falta de entusiasmo
Com apenas dois meses restantes para o início do Mundial, os números são alarmantes para o futebol brasileiro. Segundo o Datafolha, 54% dos brasileiros afirmam não ter interesse em assistir à Copa de 2026, o maior índice desde o início da série histórica em 1994. Além disso, 31% dos entrevistados declararam que não pretendem ver nenhuma partida do torneio, reforçando a percepção de que o tradicional "clima de Copa" perdeu força significativa no país.
Convergência política inesperada
Em um raro momento de convergência em meio à intensa polarização política, o comportamento dos eleitores de Lula e Bolsonaro mostra-se praticamente idêntico quando o assunto é o desinteresse pelo futebol. Entre os que votaram em Lula na eleição de 2022, apenas 17% demonstram grande interesse no torneio, enquanto 51% afirmam que não pretendem acompanhar os jogos.
No grupo que apoiou Bolsonaro na mesma eleição, os números são ainda mais expressivos: apenas 15% demonstram entusiasmo pela Copa, e 56% declaram que não vão assistir às partidas. Esses percentuais estão dentro da margem de erro da pesquisa, o que os torna tecnicamente equivalentes e revela uma rara sintonia entre campos políticos tradicionalmente antagônicos.
Fatores que explicam o desânimo generalizado
A pesquisa indica que fatores ligados diretamente ao futebol e ao cotidiano dos brasileiros pesam mais do que questões políticas para explicar esse desinteresse generalizado. Entre os principais elementos apontados estão:
- O desempenho recente da seleção brasileira, com resultados negativos nas Eliminatórias e em amistosos
- Mudanças significativas na rotina e nos hábitos de consumo de conteúdo esportivo
- Possíveis rejeições simbólicas associadas ao futebol como fenômeno cultural
- Desgaste natural com o excesso de competições e transmissões esportivas
Diferenças demográficas no desinteresse
Embora o desânimo seja generalizado, a pesquisa revela diferenças importantes entre grupos sociais. O desinteresse é significativamente maior entre mulheres (62%) do que entre homens (46%), apontando um recorte de gênero relevante na análise do fenômeno.
Entre os mais jovens, o interesse ainda resiste em níveis um pouco mais elevados, embora permaneça distante dos padrões históricos registrados em edições anteriores da Copa do Mundo. Essa geração parece engajar-se de forma mais seletiva e pontual com eventos esportivos de grande magnitude.
O fim do "clima de Copa" tradicional?
Os especialistas analisam que o tradicional "clima de Copa" não acabou completamente, mas sofreu transformações profundas. Se antes o torneio mobilizava o país de maneira quase automática e unânime, hoje o engajamento parece mais restrito a jogos específicos ou a grupos de interesse particular.
A pesquisa aponta para uma Copa do Mundo com mobilização nacional reduzida, em claro contraste com edições anteriores que paralisavam o país durante os jogos da seleção brasileira. De forma simbólica, o levantamento revela um ponto de convergência incomum em um país historicamente dividido: quando o assunto é futebol, eleitores de Lula e Bolsonaro estão, desta vez, no mesmo time do desinteresse.
Esse fenômeno representa não apenas uma mudança nos hábitos esportivos dos brasileiros, mas também um indicador interessante sobre como questões culturais podem, em momentos específicos, transcender divisões políticas profundamente enraizadas na sociedade.



