Família sobrevive a seis semanas de guerra no Líbano, mas é dizimada minutos antes do cessar-fogo
A família de Hassan Abu Khalil havia resistido milagrosamente a seis semanas intensas de conflito no sul do Líbano, porém a tragédia mais devastadora ocorreu nos momentos finais que antecederam a entrada em vigor de um cessar-fogo. Um ataque israelense realizado no final da quinta-feira, 16 de abril de 2026, resultou na morte de 13 de seus parentes, deixando Abu Khalil como o único sobrevivente direto deste episódio doloroso.
O ataque nos instantes finais antes da trégua
Abu Khalil, de 36 anos, havia saído para encontrar-se com amigos pouco antes da meia-noite, exatamente quando uma trégua intermediada pelos Estados Unidos entre o Líbano e Israel deveria marcar o fim dos combates entre as forças israelenses e o grupo libanês Hezbollah. "Ouvi um ataque muito forte e, quando voltei para a vizinhança, descobri que isso tinha acontecido", relatou Abu Khalil à agência Reuters na sexta-feira, enquanto observava uma escavadeira remover montanhas de concreto pulverizado que antes constituíam sua residência na cidade portuária de Tiro, localizada no sul do Líbano.
"Nesse prédio, mais de 13 membros da minha família estão desaparecidos sob os escombros. E então, Israel? Pouco antes do cessar-fogo, um massacre atrás de outro contra nós", declarou ele, expressando sua dor e indignação. Posteriormente, na sexta-feira, a agência de notícias estatal do Líbano informou que equipes de resgate haviam recuperado 13 corpos e retirado 35 sobreviventes feridos das ruínas do edifício que foi atingido na noite anterior. A mesma agência relatou que outras 15 pessoas permaneciam desaparecidas, sem localização confirmada.
Resposta militar e contexto do conflito
Os militares israelenses não responderam aos pedidos da Reuters para comentar especificamente este ataque. No entanto, em um comunicado emitido poucos minutos antes do cessar-fogo entrar em vigor, as forças israelenses afirmaram que seus ataques realizados nas 24 horas anteriores tinham como alvo militantes do Hezbollah, seus quartéis-generais e lançadores de foguetes. O Ministério da Saúde do Líbano divulgou que 2.294 pessoas foram mortas entre 2 de março e a quinta-feira, quando o cessar-fogo finalmente foi estabelecido. Este número trágico inclui 177 crianças e 274 mulheres, enquanto a contagem de combatentes mortos permanece incerta, pois o Hezbollah não divulga publicamente essas estatísticas.
Fontes familiarizadas com a situação informaram à Reuters em 27 de março que mais de 400 combatentes haviam sido mortos desde o início de março. Desde então, os disparos de mísseis realizados pelo Hezbollah resultaram na morte de dois civis em Israel, e 13 soldados israelenses perderam a vida durante a campanha militar contra o grupo apoiado pelo Irã no território libanês. Nas horas que antecederam o cessar-fogo, o Hezbollah disparou várias barragens de foguetes contra vilarejos e cidades israelenses do outro lado da fronteira, ativando sirenes de ataque aéreo e forçando civis a buscarem abrigo de emergência. Pelo menos duas pessoas ficaram feridas nesses incidentes, conforme relatado pelo serviço de ambulância israelense.
O desespero no primeiro dia de trégua
Na sexta-feira, milhares de libaneses passaram pela cidade de Tiro enquanto retornavam aos seus vilarejos ao sul. Eles atravessaram uma barreira de terra que soldados libaneses haviam erguido sobre os escombros de uma ponte destruída por Israel na quinta-feira. Muitos expressaram alívio por poderem voltar às suas aldeias no sul do Líbano, mesmo que estas estivessem severamente danificadas após os ataques israelenses. Contudo, Abu Khalil vivenciou o primeiro dia do cessar-fogo envolto em uma névoa de desespero, incapaz de se alimentar ou descansar.
Ele permaneceu torcendo as mãos ao lado da escavadeira que trabalhava nas ruínas, com os olhos fixos no buraco aberto onde as equipes de resgate realizavam buscas incessantes. "Desde o ataque, estou aqui e não fui a lugar nenhum. Toda vez que tiram alguém de lá, corremos para ver o que aconteceu, quem é - meu amigo com quem cresci, a mãe do meu amigo, o pai do meu amigo", desabafou Abu Khalil. Ele revelou que estava residindo no Reino Unido, mas decidiu retornar ao Líbano para ficar ao lado de sua família durante o conflito.
"Quem sobrou? Não sobrou ninguém. Eu gostaria de nunca ter saído para tomar aquele café e ter ficado com eles", lamentou ele, com voz embargada pela emoção. "Meu futuro se foi aqui. Essa era minha vida, essa era minha família - e agora? O que mais há depois disso?", questionou Abu Khalil, encapsulando a devastação pessoal e coletiva que marca este capítulo sombrio do conflito no Oriente Médio.



