Terceira via em 2026: a repetição de uma 'lenda urbana' política sem força concreta
O cenário político brasileiro para as eleições de 2026 se apresenta como um déjà vu preocupante, onde a promessa de uma terceira via capaz de romper a polarização entre lulismo e bolsonarismo se transforma, mais uma vez, em uma espécie de lenda urbana da política nacional. Nada indica que, pela terceira eleição consecutiva, surgirá uma candidatura com força suficiente para ameaçar seriamente os polos dominantes representados por Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.
O esvaziamento histórico do centro político
Partidos que outrora foram protagonistas do cenário político nacional agora assumem papéis secundários ou mesmo ausentes na disputa presidencial. O PSDB, referência de centro após a redemocratização e responsável por dois mandatos presidenciais com Fernando Henrique Cardoso, confirmou que não terá candidato próprio em 2026, mesmo criticando publicamente a polarização que, segundo o deputado federal Aécio Neves, "contamina as famílias e afasta os amigos".
O MDB, partido histórico que chegou à presidência com Michel Temer após o impeachment de Dilma Rousseff, também optou por não lançar candidatura ao Planalto, focando seus esforços na disputa pela Câmara dos Deputados, onde a distribuição dos bilionários fundos eleitoral e partidário se decide.
PSD: a frustrada tentativa de preencher o vácuo
Com a legenda que elegeu o maior número de prefeitos em 2024, o PSD tentou assumir a responsabilidade de garantir representação ao centro político, apresentando inicialmente três governadores como possíveis presidenciáveis. O plano, porém, desmoronou quando Ratinho Júnior, do Paraná, desistiu de última hora, transformando o sonho de uma candidatura alternativa em mais uma frustração.
A sigla ainda cogita lançar os governadores Ronaldo Caiado (Goiás) ou Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), mas nenhum deles representa a opção preferencial de Gilberto Kassab, presidente do partido. Os números explicam a hesitação: na última pesquisa Atlas em parceria com a Bloomberg, Caiado marca menos de 4% das intenções de voto, enquanto Leite alcança pouco mais de 1%.
O ciclo repetitivo das expectativas frustradas
A história recente das eleições presidenciais brasileiras mostra um padrão preocupante. Em 2018, o então candidato do PDT, Ciro Gomes, superou a marca de dois dígitos no primeiro turno, mas ficou em terceiro lugar com 12,47% dos votos. Quatro anos depois, em 2022, o desempenho da pretensa terceira via foi ainda mais modesto: Simone Tebet (MDB) alcançou apenas 4,16%, enquanto Ciro Gomes registrou meros 3,04%.
"Eu acho que ainda teremos um longo período de polarização entre bolsonarismo e lulismo", afirma um dos estrategistas da campanha de Flávio Bolsonaro, sintetizando a percepção que domina os bastidores políticos.
A ausência do elemento fundamental: votos
O problema central da terceira via permanece o mesmo: falta votos. Enquanto Lula e Bolsonaro mantêm bases eleitorais sólidas e mobilizadas, os nomes do centro político patinam com índices de intenção de voto que não ultrapassam a margem de erro das pesquisas.
O ciclo se repete: surge uma expectativa enorme pela construção de uma candidatura de centro capaz de romper a polarização, alimentada por discursos sobre a necessidade de um "caminho seguro longe dos extremos", mas logo cai em descrédito quando confrontada com a realidade eleitoral. Para 2026, todos os indicativos apontam que será diferente.
O Brasil se prepara, assim, para mais uma eleição onde a polarização entre lulismo e bolsonarismo dominará o cenário, sem que nenhuma força política alternativa consiga apresentar uma candidatura com musculatura eleitoral suficiente para alterar essa dinâmica. A terceira via segue sendo, na prática, uma promessa não cumprida da política brasileira.



