UFMG pede desculpas por compra de cadáveres do Hospital Colônia de Barbacena
UFMG pede desculpas por compra de cadáveres de Barbacena

UFMG pede desculpas por compra de cadáveres do Hospital Colônia de Barbacena

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou, nesta quinta-feira (9), um pedido formal de desculpas à sociedade brasileira por ter adquirido, no século 20, cadáveres de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena, localizado no Campo das Vertentes, em Minas Gerais. Este ato histórico busca reparar uma prática que violou a dignidade humana e envolveu cerca de 60 mil mortes no hospital, fundado em 1903.

Contexto trágico e práticas desumanas

Muitos dos falecidos no Hospital Colônia de Barbacena foram enterrados como indigentes ou tiveram seus corpos enviados para faculdades de medicina, incluindo a da UFMG, para fins de ensino de anatomia. Em uma declaração assinada pela então reitora Sandra Regina Goulart Almeida em 18 de março, a universidade afirmou: "Em respeito ao direito à verdade, à justiça e à memória, a Universidade Federal de Minas Gerais pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática que aviltou os corpos e a dignidade de pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena".

A reitora citou dados do livro "Holocausto Brasileiro", da jornalista Daniela Arbex, que revela que 1.853 cadáveres de pacientes foram comercializados entre 1969 e 1981 para instituições de ensino médico. Ela destacou que o episódio é chamado de "holocausto brasileiro" devido às condições dos manicômios, que se assemelhavam a campos de concentração nazistas, com internações compulsórias e exposição a situações desumanas.

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Vítimas além dos doentes mentais

Apenas 30% dos pacientes tinham diagnóstico de doença mental. Outros grupos, como homossexuais, militantes políticos e mulheres que perderam a virgindade antes do casamento, também eram enviados para Barbacena, refletindo uma violência histórica contra pessoas marginalizadas. A UFMG lamentou que práticas científicas, muitas vezes vistas como neutras, tenham legitimado violações de direitos humanos.

Desde 1999, a Faculdade de Medicina da UFMG mantém um programa de doação voluntária e consentida de corpos para anatomia, marcando uma mudança em suas políticas.

Compromissos de reparação histórica

Além do pedido de desculpas, a UFMG se comprometeu com o Ministério Público Federal (MPF) a adotar ações de reparação. Um inquérito civil público foi instaurado pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão no ano passado para apurar responsabilidades e buscar medidas relacionadas ao hospital.

As ações incluem:

  • Criação de espaços de memória na Faculdade de Medicina.
  • Inclusão do tema das internações compulsórias e compra de corpos nas disciplinas do Departamento de Anatomia e Imagem.
  • Restauração e conservação do livro histórico de registro de cadáveres, que contém nomes e origens das pessoas vindas de Barbacena.

A universidade reafirmou seu compromisso com os direitos humanos e valores democráticos, enfatizando a importância de não esquecer essa história dolorosa para combater a banalização da violência contra pessoas consideradas loucas.

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