ONU declara escravidão como crime máximo contra a humanidade em votação histórica
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução de impacto histórico, declarando formalmente a escravidão como "o crime mais grave contra a humanidade". A moção, apresentada pelo presidente de Gana, John Mahama, com apoio da União Africana, foi adotada por 123 votos a favor, contra apenas três votos contrários e 52 abstenções.
Restituição de bens culturais e caminho para reparações
Além da declaração simbólica, a resolução exige "a imediata e incondicional restituição" de objetos culturais retirados durante o período colonial, incluindo obras de arte, monumentos, peças de museus, documentos e arquivos nacionais, que devem ser devolvidos aos seus países de origem sem custo algum.
"A adoção desta resolução serve de salvaguarda contra o esquecimento", declarou Mahama durante a sessão da Assembleia Geral. "Hoje nos reunimos em solene solidariedade para afirmar a verdade e buscar um caminho para a cura e a justiça reparadora."
Votação revela divisão internacional
Os três países que votaram contra a resolução foram Estados Unidos, Argentina e Israel. Entre as 52 abstenções, destacam-se o Reino Unido e diversos Estados membros da União Europeia, demonstrando as complexidades políticas e históricas que envolvem o tema das reparações.
O que são as reparações e por que são reivindicadas
Entre os séculos 15 e 19, estima-se que 12 a 15 milhões de africanos foram capturados e traficados para o continente americano como mão de obra escravizada. Destes, aproximadamente dois milhões morreram durante as viagens nos navios negreiros.
O ministro das Relações Exteriores de Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa, foi enfático: "Estamos exigindo compensação. E vamos ser claros: os líderes africanos não estão pedindo dinheiro para si próprios. Queremos justiça para as vítimas, causas a serem sustentadas, educação e fundos profissionalizantes."
Precedentes históricos e desafios atuais
Embora existam precedentes de reparações, como os mais de US$ 80 bilhões pagos pela Alemanha às vítimas do Holocausto, nenhum país pagou compensações diretas pela escravidão africana. Mesmo nações que pediram desculpas formalmente, como a Holanda em 2022, criaram fundos sociais em vez de reparações financeiras diretas.
A pesquisadora Celeste Martinez explica: "O mais importante é compreender que ninguém está tentando mudar o passado, mas cuidar das consequências no presente. O legado da escravidão persiste até hoje, na forma de racismo e desigualdade."
Valores em discussão e complexidade jurídica
As estimativas financeiras variam enormemente:
- O bloco Caricom (15 nações caribenhas) reivindica pelo menos US$ 33 trilhões
- O ex-juiz do Tribunal Internacional de Justiça Patrick Robinson calculou US$ 107 trilhões devidos por 31 países
Entre os países mencionados estão Brasil e Estados Unidos, que se beneficiaram do trabalho escravo após suas independências. O especialista jurídico Luke Moffett, contudo, alerta para as dificuldades práticas: "Juridicamente, é uma montanha imensa que não pode ser escalada, mas isso não significa que as partes envolvidas não devam se reunir e negociar."
Significado político da resolução
Embora a Assembleia Geral da ONU não tenha poder para impor reparações, a resolução confere legitimidade política à causa. Almaz Teffera, pesquisadora da Human Rights Watch, avalia: "Já é um passo enorme e significativo, em termos políticos, que haja este debate nas Nações Unidas. Ele abre o caminho para o engajamento entre os Estados."
A ativista Esther Xosei, porém, mantém certo ceticismo: "É encorajador ver as nações africanas ocuparem o centro do palco nestas discussões, mas os corações e as mentes não serão conquistados nas Nações Unidas. A verdadeira batalha será travada nas ruas."
Pedidos de desculpas como elemento fundamental
Para Sara Hamood, do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, o reconhecimento histórico é crucial: "Declaramos repetidas vezes que nenhum país reconheceu totalmente o legado da escravidão ou se responsabilizou de forma abrangente pelos impactos à vida das pessoas de descendência africana. Pedir desculpas formais, contar a verdade e promover a educação fazem parte de uma ampla série de medidas."
A resolução marca um momento histórico no debate internacional sobre justiça reparatória, abrindo caminho para discussões que países africanos e caribenhos vêm conduzindo há mais de um século, mas que ganharam novo impulso no século 21 com o reconhecimento formal de envolvimento histórico no comércio de pessoas escravizadas.



