Justiça de SP impede fechamento do Centro de Acolhida São Leopoldo pela prefeitura
Justiça impede fechamento de centro de acolhida em São Paulo

Justiça de São Paulo veta fechamento do Centro de Acolhida São Leopoldo pela prefeitura

A Justiça do Estado de São Paulo emitiu uma decisão que proíbe terminantemente a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) de fechar ou reduzir o número de vagas do Centro de Acolhida São Leopoldo, localizado no bairro do Belenzinho, na Zona Leste da capital paulista. Esta é a segunda decisão judicial contrária à prefeitura neste mês, referente ao encerramento de serviços de centros de acolhida na região.

Serviço essencial e ameaça de interrupção

O equipamento público realiza aproximadamente 14 mil atendimentos mensais à população em situação de vulnerabilidade social, oferecendo 180 vagas de pernoite e distribuindo 450 refeições diárias. A prefeitura planejava interromper o serviço a partir do dia 17 do próximo mês, atendendo a um pedido formal do vice-prefeito, Ricardo Mello Araújo (PL), e do ex-subprefeito da Mooca, Marcos Vinícius Valério.

A entidade responsável pela administração da unidade foi oficialmente comunicada da rescisão contratual na semana passada, e 93 colaboradores já estão sob aviso-prévio de demissão. A decisão judicial desta sexta-feira (20) considera que o encerramento do serviço configuraria descumprimento de uma liminar anterior e impõe uma multa diária de R$ 30 mil caso o atendimento seja descontinuado pela administração municipal.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Proteção judicial e mobilização social

A ação movida pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo também protege um hotel social que seria fechado na próxima semana. A prefeitura recebeu um prazo de 24 horas para se manifestar nos autos do processo. O risco de desassistência com o fechamento do centro de acolhida já havia motivado uma recomendação contrária à medida pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

Na quinta-feira (19), o órgão ministerial pediu que a decisão de fechamento fosse imediatamente suspensa até que fossem apresentadas justificativas técnicas sólidas e garantias concretas da continuidade do atendimento aos usuários. Nesta quarta-feira (18), dezenas de usuários do núcleo São Leopoldo participaram de um ato público contra o fechamento da unidade, realizado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo de São Francisco.

Documentos internos e reorganização questionada

Relatórios produzidos pela própria Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) reconhecem a importância fundamental do São Leopoldo para a rede socioassistencial da região. Um documento publicado em setembro do ano passado apontou que o atendimento teve 99% de avaliação positiva em 60 pareceres técnicos. No início de março, uma funcionária da pasta se opôs expressamente ao fechamento do serviço, considerado de "excelente execução".

A medida faz parte de um processo de reorganização da rede de assistência na região da Mooca, iniciado em maio passado por uma solicitação direta do vice-prefeito Mello Araújo (PL) com o então subprefeito Marcos Vinicius Valério. Em cartas oficiais, eles solicitaram a transferência "urgente" do equipamento para outro local, argumentando que muitos usuários ficam aglomerados em calçadas e vias públicas, causando incômodo à vizinhança e prejudicando a segurança e a organização urbana.

Investigação do Ministério Público e contexto nacional

A reorganização dos serviços de assistência social na região da Mooca é alvo de um inquérito civil instaurado pela Promotoria de Direitos Humanos da capital. Recentemente, a gestão Nunes recuou da decisão de fechar o Núcleo São Martinho de Lima, serviço fundado há 35 anos pelo padre Julio Lancellotti, após intensa mobilização social e investigação do MP.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

A investigação foi aberta após uma representação formal do deputado estadual Eduardo Suplicy e da vereadora Luna Zarattini, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT). Os parlamentares argumentam que o fechamento viola a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na ADPF 976, que reconheceu um "estado de coisas inconstitucional" em relação à população de rua no Brasil. Segundo o argumento jurídico, a prefeitura estaria levantando "barreiras intransponíveis" ao acesso a serviços públicos essenciais.

De acordo com o último Censo da prefeitura, 31.884 pessoas viviam em situação de rua na capital paulista em 2021. Um levantamento atualizado está em produção e deve ser publicado no segundo semestre deste ano. A secretaria municipal informou, em nota, que "em relação ao Centro São Leopoldo, a pasta realiza estudos técnicos", integrando um processo permanente de monitoramento com foco no aprimoramento contínuo da rede de proteção social.