Chef relata episódio de discriminação em delicatessen do Leblon ao buscar produtos para Pessach
A chef Monique Benoliel tornou pública uma situação de discriminação religiosa que vivenciou em uma delicatessen que frequentava há anos na Cobal do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Durante uma visita de rotina à Delly Gil, a profissional questionou ao proprietário, identificado como Gil, sobre a ausência de produtos típicos da celebração judaica de Pessach, como o matzá, pão sem fermento consumido tradicionalmente no período.
Resposta hostil e declarações preconceituosas
De acordo com o relato detalhado da chef, a resposta do comerciante foi imediatamente hostil e carregada de preconceito. Em voz alta e diante de outros clientes presentes no estabelecimento, o proprietário teria afirmado que não comprava mais produtos judaicos, que estava "cansado dos judeus" e que não venderia mais para membros da comunidade judaica.
Monique Benoliel descreve ter ficado em estado de choque com as declarações, reagindo dizendo que então deveria parar de frequentar o local. A resposta do dono, segundo seu testemunho, foi seca: "É isso aí". A chef então abandonou o carrinho com suas compras e deixou o estabelecimento profundamente abalada pela experiência.
Testemunhas e pedido de desculpas parcial
O episódio contou com a presença de outras pessoas que podem servir como testemunhas, conforme destacado pela própria vítima. Uma funcionária identificada como filha do proprietário teria se aproximado da chef para pedir desculpas pelo ocorrido, reconhecendo a gravidade da situação.
Notificação extrajudicial da Federação Israelita
O caso foi levado à Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, que imediatamente adotou medidas legais cabíveis. A entidade enviou uma notificação extrajudicial à empresa responsável pela delicatessen, a Vale Formoso Importação e Exportação Ltda., que opera com o nome fantasia Delly Gil.
No documento formal, a federação afirma que recebeu a denúncia por canais informais e que os fatos ainda estão em fase preliminar de apuração. Contudo, deixou claro que caso confirmadas, as condutas relatadas podem configurar prática discriminatória por origem, identidade ou religião, com possível enquadramento na Lei nº 7.716/89, que trata especificamente de crimes resultantes de preconceito.
A notificação também menciona possível violação a princípios constitucionais fundamentais como a dignidade da pessoa humana e a igualdade entre todos os cidadãos. A Federação Israelita estabeleceu prazo de três dias para que a empresa apresente manifestação formal contendo:
- Relato detalhado dos fatos ocorridos
- Identificação completa de todos os envolvidos
- Relação de possíveis testemunhas
- Registros internos do estabelecimento
- Providências já adotadas pela empresa
- Informações sobre políticas internas de prevenção à discriminação
A entidade destacou ainda que episódios dessa natureza possuem elevada sensibilidade social por atingirem não apenas os envolvidos diretamente, mas toda a coletividade que se identifica com a religião ou origem mencionada.
Posicionamento oficial da Federação Israelita
Em nota oficial enviada à imprensa, a Fierj declarou: "A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro informa que já adotou as medidas legais cabíveis em relação ao caso envolvendo o estabelecimento Delly Gil. A empresa foi formalmente notificada para prestar esclarecimentos. Nossa Procuradoria está acompanhando o caso de perto, atuando na elaboração dos documentos necessários e prestando total apoio às vítimas, inclusive no acompanhamento das medidas cabíveis. Seguimos vigilantes. Não toleramos qualquer forma de discriminação. Respeito não é opcional."
Nota de esclarecimento da Delly Gil
Após a ampla repercussão do caso nas redes sociais e na mídia, a delicatessen publicou uma nota oficial em suas plataformas digitais. No comunicado, a empresa afirma não compactuar com qualquer forma de desrespeito ou preconceito, mas adota um tom que minimiza a gravidade das acusações.
A nota diz que, "se alguma fala ou situação foi interpretada de maneira inadequada", a empresa pede desculpas e ressalta que a Delly Gil é uma empresa familiar construída com base no respeito e na convivência com diferentes pessoas, incluindo a comunidade judaica, com a qual diz sempre ter mantido relação próxima.
O texto completo do posicionamento da empresa afirma: "Nos últimos dias, fomos informados de um relato envolvendo um atendimento em nossa loja, que gerou desconforto e preocupação. Queremos esclarecer, de forma sincera, que não compactuamos com qualquer forma de desrespeito ou preconceito. Se alguma fala ou situação foi interpretada de maneira inadequada, pedimos desculpas. Não é essa a forma como conduzimos nossa relação com clientes ao longo de todos esses anos. A Delly Gil é uma empresa familiar, construída com base no respeito, no cuidado e na convivência com diferentes pessoas e histórias, incluindo a comunidade judaica, com quem sempre mantivemos uma relação próxima. Estamos atentos ao ocorrido e seguimos à disposição para o diálogo, com responsabilidade e respeito."
O caso continua em acompanhamento pela Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, que mantém vigilância sobre as investigações e possíveis desdobramentos legais desta situação que expõe questões sensíveis de discriminação religiosa no comércio carioca.



