Juros do consignado privado atingem patamar recorde de 59,4% ao ano em fevereiro
Dados divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira (30) revelaram que a taxa média de juros do consignado privado alcançou o pico histórico de 59,4% ao ano em fevereiro. Esse recorde foi registrado após uma alta mensal de 2 pontos percentuais, acumulando uma elevação impressionante de 18,5 pontos percentuais nos últimos 12 meses. O atual patamar supera significativamente as taxas praticadas antes da implementação da modalidade do consignado para trabalhadores com carteira assinada, lançada pelo governo Lula em março do ano passado, quando a média girava em torno de 40% ao ano.
Insatisfação governamental e diagnóstico do Ministério da Fazenda
A insatisfação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os juros cobrados na modalidade é antiga e, contrariando as expectativas do governo, a taxa média segue em trajetória ascendente. No ano passado, o presidente solicitou um diagnóstico do Ministério da Fazenda com o objetivo de baratear o custo do crédito. Fernando Rocha, chefe do departamento de Estatísticas do Banco Central, afirmou durante a apresentação dos dados: "Nessa linha específica, se olhar de abril de 2025 para fevereiro de 2026, temos muito mais um cenário de novo patamar da taxa de juros do que uma trajetória de crescimento. Em abril de 2025 era 59,1% [ao ano] e agora passou para 59,4% [ao ano]".
Queda nas concessões e alta no rotativo do cartão de crédito
As informações do BC também mostraram uma queda expressiva de 22,5% nas concessões de novos empréstimos para trabalhadores CLT em fevereiro em relação a janeiro, mesmo considerando que janeiro teve três dias úteis a menos. Foram liberados R$ 7,15 bilhões para trabalhadores celetistas no consignado privado, contra R$ 9,22 bilhões no início de 2026. Paralelamente, outra modalidade que registrou alta de juros em fevereiro foi o rotativo do cartão de crédito, com taxa média de 435,9% ao ano cobrada pelos bancos de pessoas físicas, representando um aumento mensal de 11,4 pontos percentuais. Nesse segmento, estima-se que existam cerca de 40 milhões de clientes.
Maior taxa média de juros da série histórica do BC
Segundo Fernando Rocha, os altos juros cobrados no rotativo puxaram para cima a média das demais operações. Com isso, foi registrada em fevereiro a maior taxa média de juros cobrada em todas as modalidades do país desde o início da série histórica do BC, em março de 2011. "Se a gente considerar pessoa física, pessoa jurídica, [crédito] livre, [crédito] direcionado, essa taxa [média de juros] atingiu 33% ao ano no mês de fevereiro e é a maior taxa de juros da série histórica do BC, com crescimento de 0,3 ponto percentual no mês e aumento de 2,6 pontos percentuais em 12 meses", explicou o técnico da autoridade monetária.
Impacto eleitoral e comprometimento de renda das famílias
Lula teme que o maior endividamento dos brasileiros impacte sua popularidade em ano eleitoral. Auxiliares do presidente alertam que todo o aumento de renda da população está sendo consumido pelas dívidas, alterando a percepção dos cidadãos em relação à redução do desemprego e ao controle da inflação, gerando mal-estar com o governo. O comprometimento de renda, que representa a parcela do orçamento familiar destinada ao pagamento de dívidas e despesas fixas, subiu 0,1 ponto percentual no mês, alcançando 29,3% em janeiro. Esse é o maior patamar da série histórica do BC, iniciada também em março de 2011.
Crescimento da inadimplência e medidas regulatórias
Rocha destacou que as operações de crédito emergencial, especialmente o rotativo do cartão de crédito, tiveram papel relevante no crescimento do comprometimento de renda da população brasileira. O endividamento das famílias situou-se em 49,7% em janeiro, permanecendo estável no mês, mas aumentando 1,1 ponto percentual em 12 meses. No crédito com recursos livres, a inadimplência (pagamento em atraso há mais de 90 dias) subiu 0,2 ponto percentual em fevereiro, alcançando 5,5%, com aumentos equivalentes nas carteiras de pessoas físicas (6,9%) e de pessoas jurídicas (3,3%).
No caso do consignado para trabalhadores do setor privado, a inadimplência saltou para 6,3% em fevereiro, ante 5,4% um mês antes. Já no rotativo do cartão de crédito, houve queda na inadimplência, de 62,5% em janeiro para 59,7% em fevereiro. Especialistas explicam que a escalada do calote entre os mais pobres pode ser atribuída à maior vulnerabilidade a juros altos daqueles que ganham menos, que geralmente possuem menos poupança para amortecer choques financeiros.
Discussão sobre alternativas e efetividade do "muro inglês"
Na semana passada, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que as taxas de juros cobradas no rotativo do cartão de crédito são punitivas e defendeu uma discussão estrutural sobre a criação de alternativas mais adequadas aos brasileiros. Desde janeiro de 2024, está em vigor a norma que estabelece que a dívida de quem atrasa o pagamento da fatura do cartão de crédito não pode superar o dobro do montante original, limitando a taxa de juros a um teto de 100% do valor da dívida contraída, modelo conhecido como "muro inglês". Questionado sobre a eficácia da medida após dois anos de implementação, Galípolo disse que o "muro inglês cumpriu seu papel", mas que "talvez a extensão dessa política precise ser ponderada".
Desaceleração no ritmo de crescimento do crédito
Rocha ressaltou ainda que, ao analisar o estoque, o ritmo de crescimento do crédito está em desaceleração em qualquer uma das métricas observadas pela autoridade monetária (pessoas físicas, pessoas jurídicas, crédito livre ou crédito direcionado). As concessões a consumidores e empresas somaram R$ 699,8 bilhões em fevereiro, na série que considera os ajustes sazonais, representando uma queda de 0,5% na comparação com janeiro.
Perspectivas econômicas e análise de especialistas
Para a economista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria, a retração mostra que o avanço das taxas de juros para consumidores e o aumento da inadimplência vêm refreando o crédito. Ela destaca que o spread (diferença entre o custo que as instituições financeiras pagam para captar recursos e os juros cobrados na ponta) dos consumidores subiu mais do que os juros. "Parte desse movimento reflete a piora da qualidade da carteira, com maior participação de modalidades emergenciais no último ano", afirmou.
A expectativa, segundo a economista da Tendências, é de nova elevação dos juros nos próximos meses, devido ao maior risco de crédito e ao aumento nos juros futuros. "Mais à frente, no fim de 2026 e ao longo de 2027, a tendência é de melhora gradual das condições financeiras, com cortes na Selic [taxa básica de juros] reduzindo o custo de captação e avanços em renegociações e portabilidade aliviando a inadimplência", projetou.
Em relatório, o Goldman Sachs apontou que acredita que o crédito enfrentará dificuldades nos próximos meses, como consequência das condições monetárias restritivas e da moderação no crescimento e na dinâmica do mercado de trabalho. "Por outro lado, o ativismo de crédito por parte dos bancos públicos e as novas linhas de financiamento patrocinadas pelo governo federal e bancos públicos devem amortecer o ciclo de crédito", afirmou o banco.



