Observação de aves cresce em Alagoas e atrai novos adeptos ao hobby
Observação de aves cresce em Alagoas e atrai adeptos

A prática de observar e fotografar pássaros, conhecida internacionalmente como birdwatching, tem conquistado cada vez mais adeptos em Alagoas. O hobby, que combina contemplação da natureza, fotografia e educação ambiental, já reúne dezenas de apaixonados por aves no estado e também contribui para a preservação de espécies ameaçadas da Mata Atlântica.

Grupo Passarinheiros de Alagoas

Um dos grupos mais conhecidos é o “Passarinheiros de Alagoas”, clube de observação de aves que atua há quase dez anos e conta atualmente com cerca de 80 integrantes. Munidos de binóculos, câmeras fotográficas e roupas camufladas, os observadores passam horas em trilhas e áreas de mata tentando registrar espécies raras e endêmicas da região.

“A paixão por pássaros vem desde a minha infância. Depois de um tempo, o nosso hobby era andar em parques, fazer trilha, e com isso a gente foi aguçando essa audição com as aves, vendo e se encantando com a beleza das cores. Depois de um certo tempo, a gente descobriu que isso fazia parte de um hobby: ‘eu sou um observador de pássaros’”, disse o gestor ambiental Clarindo Silva em entrevista à TV Asa Branca Alagoas.

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Mudança de comportamento

Além da contemplação, a atividade também promove mudanças de comportamento em relação à preservação ambiental. O aposentado Eduardo Vieira, que há cerca de dez anos participa do grupo, afirmou que o contato com a natureza transformou a forma como enxerga os animais silvestres.

“Muito respeito, muita contemplação com a natureza. Você fica ali sozinho, observando todos os detalhes, fotografando e guardando aquele registro na memória”, contou. Eduardo também lembra que cresceu em um ambiente onde pássaros eram criados em gaiolas, prática que hoje rejeita. “Meu pai criava muito. Eu era responsável por alimentar, tinham umas seis, sete gaiolas ali. Hoje, na minha família, ninguém cria mais engaiolado. A natureza está aí para a gente observar e se deliciar com isso”, afirmou.

Segundo os observadores, o hobby vai na contramão dos crimes ambientais, como o tráfico e a criação ilegal de aves silvestres. Clarindo Silva defende que os animais devem permanecer livres na natureza. “A gente sabe que no Brasil e principalmente no Nordeste a presença de gaioleiros ainda é grande. Mas observar ave, ver o bicho na natureza, é bem mais gratificante e emocionante”, disse.

Espécies ameaçadas

Das cerca de 250 espécies de aves endêmicas da Mata Atlântica da região, aproximadamente 16 estão ameaçadas de extinção. Entre elas estão a saíra-pintor, a choquinha-de-alagoas, o surucuá-de-murici, a corujinha-de-alagoas e o beija-flor-de-costas-violeta. O registro dessas espécies raras é considerado um momento especial pelos observadores, que frequentemente percorrem áreas de conservação ambiental em busca das aves.

O biólogo e pesquisador Arthur Andrade explica que a observação de aves também contribui diretamente para a ciência por meio da chamada “ciência cidadã”. “Os dados coletados durante esse momento de lazer, com fotografias e listas produzidas pelos observadores, são postados em plataformas como Wiki Aves e eBird. Essas informações ficam disponíveis para a academia fazer diversos trabalhos”, explicou. Segundo ele, atualmente Alagoas possui 520 espécies de aves catalogadas, e mais de 95% delas já foram fotografadas na plataforma Wiki Aves.

Reservas ajudam na preservação

As unidades de conservação ambiental em Alagoas são alguns dos principais destinos dos observadores de aves. Muitas dessas áreas pertencem a reservas particulares de proteção ambiental administradas em parceria com o Instituto para Preservação da Mata Atlântica (IPMA). O presidente e fundador do instituto, Fernando Pinto, afirma que a preservação da avifauna é uma das principais ferramentas de educação ambiental desenvolvidas pelo órgão. “Ninguém preserva o que não conhece”, afirmou.

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Segundo ele, o IPMA atua em três frentes principais: criação de unidades de conservação, reflorestamento e educação ambiental. Nos últimos 20 anos, o instituto afirma ter plantado mais de 30 milhões de árvores nativas em áreas do setor sucroalcooleiro. As reservas também abrigam espécies resgatadas do tráfico de animais silvestres e aves ameaçadas de extinção, como o mutum-de-alagoas, considerado uma das aves mais raras do mundo e atualmente extinto na natureza.

Fernando Pinto alerta para a perda da Mata Atlântica no Nordeste. “Nós só temos no trecho de Mata Atlântica de Penedo até o sul do Rio Grande do Norte 3% de mata. Noventa e sete por cento já foi derrubada. E nesses 3% a gente tem uma das microbiotas mais ameaçadas do planeta”, disse.