Ibovespa cai 0,36% com taxação chinesa à carne e queda do petróleo
Ibovespa fecha em queda com taxação chinesa e petróleo

O primeiro pregão do ano na Bolsa de Valores brasileira, B3, terminou no vermelho nesta sexta-feira, 2 de janeiro de 2026. O Ibovespa, principal índice do mercado acionário, recuou 0,36%, fechando aos 160.538,69 pontos. A queda foi influenciada por dois fatores principais: a imposição de tarifas adicionais pela China sobre a carne bovina brasileira e a sinalização de uma possível abertura política na Venezuela, que derrubou as cotações do petróleo e afetou a Petrobras.

Impacto das salvaguardas chinesas no agronegócio

O cenário negativo para as ações brasileiras ganhou força com a decisão do governo chinês de aplicar tarifas de salvaguarda de 55% sobre as importações de carne bovina que ultrapassarem os limites de cota estabelecidos. A medida, anunciada pelo Ministério do Comércio da China, entrou em vigor em 1º de janeiro e terá validade de três anos.

Segundo Pequim, a cota global de importação para 2026 será de 2,7 milhões de toneladas. Embora seja um volume elevado, próximo ao recorde de 2,87 milhões de toneladas importadas em 2024, ele fica abaixo do que foi embarcado por grandes exportadores como Brasil e Austrália nos primeiros onze meses de 2025. As autoridades chinesas justificaram a medida alegando que o aumento das importações estava prejudicando seriamente a indústria doméstica do país.

O governo brasileiro reagiu por meio de uma nota conjunta dos ministérios do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), da Agricultura (Mapa) e das Relações Exteriores (MRE). A comunicação afirmou que o Brasil acompanha a decisão "com atenção" e atuará de forma coordenada com o setor privado para defender os interesses nacionais, tanto no diálogo bilateral com a China quanto na Organização Mundial do Comércio (OMC).

O impacto financeiro estimado é severo. A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) projeta uma perda de receita de até US$ 3 bilhões em 2026. No pregão, as ações das empresas do setor foram as que mais sofreram:

  • Minerva (BEEF3): registrou a maior queda do dia, desvalorizando 6,77%, para R$ 5,37.
  • MBRF (fusão da Marfrig com a BRF): caiu 1,7%, cotada a R$ 19,64.

Petrobras pressionada por sinal de Maduro a Trump

Além do agronegócio, o setor de energia também puxou o Ibovespa para baixo. As ações da Petrobras (PETR3, PETR4) caíram 0,36%, para R$ 30,71. A queda foi atrelada à fraqueza nos preços internacionais do petróleo, após declarações do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Em entrevista exibida na TV estatal venezuelana na quinta-feira, 1º de janeiro, Maduro revelou que teve uma conversa de dez minutos com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em novembro. O líder venezuelano se disse aberto a negociar um acordo para combater o narcotráfico e, de forma mais significativa para o mercado, ofereceu acesso facilitado ao petróleo venezuelano para empresas americanas.

Essa sinalização de uma possível normalização nas relações, que poderia levar a um aumento da oferta global de petróleo a partir das vastas reservas venezuelanas, exerceu pressão de baixa sobre os preços do barril. O petróleo Brent recuou 0,12% na sessão.

Dólar recua com atratividade do carry trade

Enquanto a Bolsa caía, o mercado de câmbio registrou movimento oposto. O dólar comercial fechou em queda de 0,82%, cotado a R$ 5,432. Analistas atribuem a desvalorização da moeda americana à atratividade do real brasileiro, impulsionada pelo amplo diferencial de juros entre os dois países.

Com a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano no Brasil, contra uma faixa de 3,5% a 3,75% nos Estados Unidos, o diferencial de mais de 11 pontos percentuais atrai investidores estrangeiros para operações de carry trade. Essa estratégia consiste em captar recursos em moedas de juros baixos para aplicar em ativos de países com juros mais altos, como o Brasil, gerando um fluxo de capitais que fortalece a moeda local.

O pregão desta sexta marcou uma correção após um 2025 de forte alta para o Ibovespa, que acumulou valorização de 34% no ano passado. Os eventos internacionais relacionados ao comércio de carne e ao petróleo demonstram a sensibilidade do mercado brasileiro a fatores externos no início de 2026.