Papa Leão XIV denuncia 'abismos entre pobres e ricos' durante visita a Mônaco
O papa Leão XIV realizou uma crítica contundente às desigualdades sociais durante seu primeiro discurso em uma visita relâmpago ao Principado de Mônaco, território reconhecido mundialmente pelo alto padrão de vida e pela concentração de riqueza. O pontífice, de origem americana e também cidadão peruano, foi recebido no heliporto pelo príncipe Albert II e pela princesa Charlène antes de se dirigir ao Palácio do Príncipe.
Discurso com forte conteúdo social
Da varanda do palácio, Leão XIV fez um pronunciamento em francês — língua oficial do país — no qual atacou "as configurações injustas do poder" e "as estruturas de pecado que abrem abismos entre pobres e ricos, entre privilegiados e descartados, entre amigos e inimigos". O papa enfatizou que "cada talento, cada oportunidade, cada bem depositado em nossas mãos tem um destino universal", reforçando a necessidade de redistribuição de recursos em linha com a ênfase na justiça social de seu antecessor, Francisco.
Contexto internacional e referências históricas
Em referência indireta a conflitos internacionais, o líder católico declarou ainda que "a ostentação da força e a lógica da prevaricação prejudicam o mundo e ameaçam a paz". Com cerca de duas décadas de atuação missionária em regiões pobres do Peru, Leão XIV mencionou a encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891 por Leão XIII, considerada um marco fundamental da doutrina social da Igreja Católica.
Recepção e reações no principado
A visita reuniu milhares de fiéis que acompanharam a cerimônia com bandeiras do Vaticano e de Mônaco. Integrantes da família principesca, incluindo as princesas Stéphanie, Caroline e Charlotte, estiveram presentes no evento. Durante seu discurso, o papa afirmou que viver em Mônaco "representa para alguns um privilégio" e, simultaneamente, "um chamado específico a questionar o seu lugar no mundo".
O príncipe Albert II reconheceu a existência de um "imperativo de solidariedade por parte daqueles que têm mais recursos" e defendeu que "os pequenos Estados também podem contribuir para melhorar o mundo". Moradora do principado, a italiana Marge Valentino, de 73 anos, comentou que, embora haja privilégios, "as responsabilidades são de todos", destacando o que considera a generosidade da população local.
Contraste entre opulência e espiritualidade
Nas ruas de Monte Carlo, cartazes com a imagem do papa contrastavam visivelmente com o cenário marcado por carros de luxo e grande fluxo de turistas, muitos dos quais desconheciam completamente a visita papal. Autoridades locais ressaltaram a intenção de destacar não apenas a imagem de opulência do principado, mas também sua dimensão espiritual e os laços históricos com a Santa Sé.
Mônaco está entre os poucos países europeus em que o catolicismo permanece como religião de Estado. Dos aproximadamente 39 mil habitantes do território — que possui apenas dois quilômetros quadrados e conta com 25% de cidadãos monegascos —, cerca de 8% se declaram praticantes do catolicismo.
Agenda completa e significado da visita
A agenda do pontífice incluiu ainda:
- Encontro com a comunidade católica na Catedral da Imaculada Conceição
- Visita à praça da igreja de Santa Devota — padroeira de Mônaco
- Celebração de uma missa ao ar livre no Estádio Louis II, com público estimado em 15 mil pessoas
A visita ocorreu a uma semana da Páscoa, principal celebração do calendário cristão, e é vista como um indicativo significativo da popularidade de Leão XIV, considerado mais discreto que seu antecessor, o papa Francisco. O evento reforçou o papel da Igreja Católica como voz crítica em questões de justiça social mesmo em contextos de grande concentração de riqueza.



