Psicólogo analisa antissemitismo: 'Defesa de Israel é ganho político'
Antissemitismo e ganho político na defesa de Israel

O psicólogo clínico e filósofo Sócrates Nolasco lança um olhar profundo sobre uma das formas de ódio mais persistentes da história. Em seu novo livro, "Não Matarás: as raízes históricas do antissemitismo e seus reflexos nos dias de hoje", ele investiga as causas psíquicas e sociais que alimentam a perseguição contra judeus. A obra chega às livrarias na quarta-feira, 28 de janeiro de 2026, pela editora Jaguatirica, em um momento de intenso debate público.

O antissemitismo além da desinformação

Em entrevista exclusiva, Nolasco, que também é membro titular da Academia Brasileira de Filosofia, explica que o antissemitismo ganhou força renovada com a guerra entre Hamas e Israel. No entanto, ele vai além da superfície do conflito geopolítico. "A questão não passa por uma falta de informação intelectual ou cognitiva", afirma o especialista. Segundo ele, o ódio carrega uma força emocional ligada a conflitos psíquicos que as sociedades preferem não enfrentar diretamente.

O psicólogo detalha que imagens e estereótipos negativos sobre judeus – como a ideia de que são todos ricos, a acusação de terem matado Cristo ou a associação à traição de Judas – ressurgem ciclicamente em períodos de tensão. "Comecei a perceber que uma série de referências feitas depois que a guerra começou, as imagens usadas para se referir aos judeus, já haviam sido apresentadas em momentos anteriores de crescimento do antissemitismo", relata Nolasco, baseado em um trabalho de monitoramento que realizava mesmo antes do conflito atual.

A instrumentalização política do ódio

Um dos pontos centrais da análise de Nolasco é a forma como o antissemitismo é instrumentalizado para fins políticos. Ele observa com criticidade o posicionamento de partidos de direita que saíram em defesa do Estado de Israel. "Esse discurso diz respeito a algum ganho político desse grupo", avalia o psicólogo. "Eles não estão preocupados com o nível de pobreza, conflitos sociais... Não estão muito comprometidos com o cotidiano das pessoas que geram as causas que defendem, estão comprometidos com o ganho político."

Para Nolasco, a questão política serve para encobrir contradições e impasses que cada sociedade tem com a lei. O antissemitismo, em sua visão, reflete um conflito não resolvido com a ordem legal e moral. O discurso de ódio, portanto, seria uma forma de mascarar verdades inconvenientes e evitar um debate franco sobre esses impasses sociais.

Judeus: uma minoria não sistematizada

O especialista faz uma distinção importante sobre a identidade judaica. Diferente de outros grupos que conquistaram reconhecimento e proteção através de tensões políticas, como negros, mulheres e LGBTQIA+, os judeus não são facilmente enquadrados como uma "minoria" no mesmo sentido. "Eles não são uma raça, existem judeus negros, brancos e mestiços. É uma religião, mas não é como a Igreja Católica ou o Islamismo", explica.

Essa plasticidade e capacidade de adaptação, segundo Nolasco, são justamente o que permitiu a sobrevivência dos judeus através dos séculos. No entanto, essa mesma característica os torna alvos mais vulneráveis em tempos de crise. A simples caracterização visual – como o uso de tzitzit (os fios pendurados), chapéu e barba – pode ser um "chamariz para ataques antissemitas", que migraram do ambiente universitário para o centro do debate ideológico, onde o judeu é muitas vezes caricaturado como a "representação do mal".

A pesquisa para "Não Matarás" consumiu quatro anos de trabalho de Sócrates Nolasco, que visitou comunidades judaicas em lugares como a Hungria para entender a diversidade dentro do judaísmo e desconstruir estereótipos homogeneizantes. Seu livro se propõe a ser uma ferramenta para compreender não apenas um preconceito específico, mas os mecanismos psíquicos e sociais que permitem a perpetuação do ódio.