Muca e Roberto Menescal se unem em álbum que celebra a herança musical brasileira
O produtor musical, multi-instrumentista e compositor Muca se juntou ao ícone da bossa nova Roberto Menescal para criar o álbum "Beleza", previsto para lançamento em 29 de maio. Menescal, aos 88 anos, é o único remanescente da primeira geração de compositores e instrumentistas da Bossa Nova, movimento que transformou a música brasileira a partir de 1958.
Uma jornada de volta às raízes
Criado em São Paulo, Muca migrou para Londres em 2009 e, após 16 anos na capital inglesa, iniciou em 2025 uma jornada de retorno à herança musical brasileira. Nessa trajetória, encontrou em Menescal o parceiro ideal para materializar sua visão artística. Juntos, assinam e produzem as 12 faixas do álbum, que conta com arte de capa multicolorida criada por Cayton Jr.
Menescal não apenas validou artisticamente o projeto, como também participou ativamente, tocando violão em várias faixas e contribuindo com vocais ocasionais. Recentemente, ele havia endossado o mergulho de Luísa Sonza na bossa nova com o álbum "Bossa sempre nova" em 2026.
Diversidade vocal e linguística
O álbum apresenta 12 solistas convidadas, cada uma dando voz a uma das músicas. Metade das faixas é cantada em português e metade em inglês, refletindo a experiência internacional de Muca. Todas as letras em português foram escritas por César Lacerda.
Entre as vozes destacam-se Ilessi, que canta lindamente "A beleza de ser", samba que evoca o clima clássico da bossa nova. Mirella Costa empresta sua voz quente a "Versos singelos", samba que costura versos de sucessos do cancioneiro bossa-novista como "Meditação" e "Corcovado".
Fusão de ritmos e influências
As três primeiras faixas do álbum justificam plenamente o título "Beleza", incluindo "Ladeira", samba cantado por Josyara que revolve as raízes afro da bossa negra. Nas nove faixas seguintes, o poder de sedução diminui ligeiramente devido à oscilação na qualidade do repertório, mas a elegância dos arranjos e das interpretações permanece constante.
Joia Luz ilumina "Juréia" em tons brandos, enquanto Fabiana Cozza cai no pagode com bossa em "Todo samba". Amanda Maria canta "Mulher assim", faixa que poderia ter resultado mais azeitada com um mix mais preciso entre sons orgânicos e sintetizados.
Transcendendo fronteiras musicais
Gravado entre estúdios do Reino Unido, Rio de Janeiro e São Paulo, "Beleza" foi idealizado para transcender o universo da bossa nova com toques de folk e soul. Para ouvidos estrangeiros, "Midnight lullaby" (cantada por Liana Flores) reproduz bem o clima da bossa brasileira em inglês, com espírito folk.
O mesmo clima ambienta "Playing on the loose fields", cantada por Anaiis e prevista para lançamento como primeiro single em 6 de março. "Every little thing", com Sarah, remete a Sergio Mendes em momento menos inspirado, enquanto "Blue rain" (voz de Sofia Grant) é rara faixa onde o violão de Menescal realmente sobressai.
Coesão e balanço final
A décima primeira faixa, "Dance with you" (cantada por Alice SK), deixa a sensação de que o álbum poderia ser mais coeso com três ou quatro faixas a menos. O projeto se encerra como começou: em samba, ritmo totalmente dominante no disco, geralmente na cadência de sambossa.
A faixa derradeira "Feeling when it comes" é ouvida na voz de Hedi Vogel. Diferentemente de Luísa Sonza, que convocou Menescal e Toquinho para endossar cancioneiro já consagrado, Muca se une a Roberto Menescal para dar forma a músicas inéditas.
"Beleza" tem méritos incontestáveis e, justiça seja feita, o álbum já se justifica pelas três primeiras faixas, que capturam a essência da colaboração entre duas gerações de músicos brasileiros em busca de renovar tradições sem perder a elegância e sofisticação que caracterizam a melhor produção musical do país.



