Um fenômeno recente está revolucionando o cenário esportivo global: a invasão de celebridades do mundo do entretenimento no futebol. Movidas pela busca de diversificação de investimentos e alto retorno financeiro, estrelas de Hollywood e da música estão desembolsando milhões para adquirir clubes, especialmente em divisões inferiores, em uma fusão lucrativa que beneficia ambos os lados.
Do showbiz para os gramados: uma estratégia bilionária
Apesar de caminharem por universos paralelos movidos a cifras bilionárias, o mundo das celebridades e o futebol encontraram um ponto de convergência. A necessidade de astros com cachês elevados diversificarem seus investimentos deu origem a uma nova classe de dirigentes esportivos. Eles injetam altas somas em clubes, que, por sua vez, ganham não apenas dinheiro, mas também projeção internacional, engajamento nas redes sociais e acesso a novos mercados.
O pioneiro dessa tendência foi Elton John ainda na década de 1970, quando comprou seu time do coração, o Watford, da Inglaterra, por cerca de 10 milhões de reais. O cantor, que enfrentava uma crise pessoal, declarou que o investimento foi uma forma de salvar sua própria vida. Hoje, porém, o motor principal é o horizonte de lucro e a oportunidade de associar a imagem pessoal ao esporte mais popular do planeta.
"A ideia é transformar o nome em fonte de receita e fortalecê-lo como marca", explica Amir Somoggi, sócio da Sports Value, destacando a estratégia por trás dos movimentos.
Casos de sucesso: do reality show ao filantropismo
Poucos exemplos ilustram tão bem o potencial dessa fusão quanto o caso de Ryan Reynolds e Rob McElhenney. Em 2021, a dupla investiu o equivalente a 14 milhões de reais para adquirir o Wrexham, um clube modesto do País de Gales que disputava a quinta divisão inglesa. A estratégia foi transformar a aventura em conteúdo.
A série Welcome to Wrexham, exibida pelo Disney+, documentou treinos, tropeços e vitórias do time. O resultado foi extraordinário: além de ganhar dez prêmios Emmy, o valor de mercado do clube disparou de 2,6 milhões para 130 milhões de dólares. Em campo, a equipe ascendeu meteoricamente, alcançando a série B do futebol inglês.
Outro modelo inovador é o do Angel City FC, time feminino fundado pela atriz vencedora do Oscar Natalie Portman. Criado em 2022, o clube construiu seu modelo de negócios atrelado a ações filantrópicas, destinando 10% de sua receita para projetos comunitários em Los Angeles. Apesar de um desempenho mediano em campo (caiu da 8ª para a 11ª posição), o Angel City se tornou o clube feminino mais valioso do mundo, avaliado em 250 milhões de dólares, e possui a maior torcida da NWSL.
Outras celebridades que entraram em campo
A lista de artistas que apostaram no futebol só cresce:
- Snoop Dogg tornou-se sócio do Swansea City (País de Gales) em julho passado, levando visibilidade global ao clube.
- Martha Stewart e o craque croata Luka Modric adquiriram cotas minoritárias do mesmo Swansea em dezembro.
- Michael B. Jordan é sócio minoritário do AFC Bournemouth.
- Will Ferrell uniu-se a Russell Crowe para ficar com parte do Leeds United.
Segundo Gabriel Henrique Marques, da GH Sports, "É interessante para os clubes, já que costumam ganhar projeção internacional, engajamento nas redes e novos patrocinadores".
O cenário brasileiro: promessa e cautela
No Brasil, a tendência começa a dar os primeiros passos, mas de forma ilustrativa dos desafios locais. O cantor sertanejo Gusttavo Lima adquiriu 60% do Atlético Clube Paranavaí, time do interior do Paraná. A aquisição, muito celebrada, ainda não trouxe os resultados esportivos esperados para a equipe, que disputa a segunda divisão estadual.
No Rio de Janeiro, o rapper L7nnon negocia a aquisição do Olaria, tradicional clube da Zona Norte afastado da elite do futebol carioca há décadas. Especialistas alertam que o histórico de má gestão financeira nos clubes brasileiros torna o negócio mais arriscado por aqui.
"Movimentos mal calculados podem ser desastrosos para todos os envolvidos", ressalta Amir Somoggi, lembrando que, para ter sucesso dentro e fora de campo, é preciso mais do que fama: é necessária uma estratégia sólida.
Esta nova onda demonstra que o futebol se transformou em um poderoso ativo de mídia e entretenimento. Quando a paixão pelo esporte se alia ao olhar empresarial das celebridades e a uma produção de conteúdo estratégica, os gramados podem se tornar palco de histórias de sucesso financeiro e de marca, redefinindo o que significa ser um clube de futebol no século XXI.