Paula Santoro celebra cura do câncer em show emocionante no Rio de Janeiro
Paula Santoro celebra cura do câncer em show no Rio

Paula Santoro celebra superação do câncer em apresentação emocionante no Rio de Janeiro

A noite de 28 de março no Acaso Cultural, charmoso polo de arte inaugurado em outubro na cidade do Rio de Janeiro, foi marcada por um momento profundamente simbólico para a música brasileira. Paula Santoro, cantora mineira de técnica vocal exemplar, subiu ao palco acompanhada do pianista e arranjador gaúcho Rafael Vernet para apresentar o show 'Tudo que você podia ser', em uma performance que representou muito mais do que um espetáculo musical.

Renovação e celebração da vida

Esta foi a primeira apresentação de Paula Santoro após ter superado completamente um câncer que enfrentou ao longo de 2025. Ao final do espetáculo, dirigindo-se a uma plateia repleta de amigos, familiares, alunos e jornalistas admiradores, a artista explicitou a celebração da cura, transformando o evento em um testemunho de resiliência e renovação.

"Tenho muito o que viver", verso da letra de "Travessia" (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967), adquiriu sentido pleno na voz da cantora, que também atua como professora de canto e fonoaudióloga.

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Repertório que homenageia grandes compositores mineiros

O show 'Tudo que você podia ser' é um desdobramento natural da apresentação anterior de 2024, também realizada em duo com Rafael Vernet. Enquanto no espetáculo passado Paula Santoro dava voz aos compositores mineiros agregados em torno de Milton Nascimento no movimento conhecido como Clube da Esquina, desta vez o foco do roteiro concentrou-se exclusivamente nas obras de Milton Nascimento e Lô Borges (1952-2025).

As músicas da discografia solo de Lô Borges compõem a verdadeira novidade do repertório atual quando comparado ao roteiro de 2024. Paula Santoro demonstrou habilidade notável no garimpo e na lapidação do ouro musical mineiro, especialmente ao desbravar os caminhos harmônicos inusitados e por vezes intrincados da obra de Lô Borges.

Momentos de destaque e densidade emocional

Entre as performances mais marcantes da noite, destacou-se a interpretação de "O caçador" (Lô Borges e Márcio Borges, 1972), música presente no primeiro álbum solo de Lô, popularmente conhecido como "O disco do tênis" pela fotografia de Cafi (1950-2019) em sua capa. Através dos versos do letrista Márcio Borges, a canção retratou o clima de tensão dos anos 1970, quando defensores da liberdade eram alvos preferenciais do aparelho repressivo vigente no Brasil.

O terror da ditadura militar foi denunciado de forma mais ou menos explícita em músicas como "Léo" (Milton Nascimento e Chico Buarque, 1978), momento em que o canto de Paula Santoro atingiu densidade emocional que se repetiu dois números depois com "E daí?" (Milton Nascimento e Ruy Guerra, 1978), considerado um dos pontos mais altos do espetáculo, especialmente pelo alcance vocal demonstrado pela intérprete.

"Outubro" (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) representou outro momento de densidade artística, com a cantora reiterando sua habilidade para valorizar composições de arquitetura musical sofisticada. Contudo, em nenhum momento Paula Santoro recorreu a virtuosismos gratuitos, mantendo sempre o equilíbrio entre técnica e expressão emocional.

Delicadeza e comunhão com a plateia

A artista também brilhou em momentos de extrema delicadeza, envolvendo o público com canções como "A Via Láctea" (Lô Borges e Márcio Borges, 1979) – música-título do álbum considerado a obra-prima da discografia solo de Lô Borges – e "Quem sabe isso quer dizer amor" (Lô Borges e Márcio Borges, 2002), composição melodiosa com alto poder de sedução.

Desde a abertura com "Ponta de areia" (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974), ficou evidente o clima de comunhão que permeou toda a apresentação. Paula Santoro incentivou ativamente a participação do público, seja ao ensinar a divisão vocal adotada por Elis Regina (1945-1982) para "O trem azul" (Lô Borges e Ronaldo Bastos, 1972) durante o bis, seja ao conduzir "Um girassol da cor de seu cabelo" (Lô Borges e Márcio Borges, 1972) de tom inicialmente sereno para um suingue percussivo após o solo do pianista Rafael Vernet.

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Embora o coro da plateia tenha por vezes dificultado a completa fruição do canto da artista, essa interação fez todo sentido em um espetáculo focado na celebração da vida e na superação pessoal.

Uma travessia musical completa

Entre sucessos como a canção-título "Tudo que você podia ser" (Lô Borges e Márcio Borges, 1972) e composições conhecidas apenas por verdadeiros conhecedores do cancioneiro de Lô Borges, como "Ela" (Lô Borges e Márcio Borges, 1979), Paula Santoro conduziu o público por uma travessia musical mineira com propriedade absoluta.

Mais do que um simples show, a apresentação no Acaso Cultural representou a materialização artística de um renascimento pessoal, transformando braço e voz em instrumentos de um viver renovado após a cura do câncer. Através da música de Milton Nascimento e Lô Borges, Paula Santoro não apenas celebrou a vida, mas reafirmou seu lugar como uma das mais talentosas intérpretes da música brasileira contemporânea.