Julia Vargas lança terceiro álbum solo 'D'água' com sonoridade ousada e conceito bem amarrado
A cantora Julia Vargas está prestes a apresentar ao público seu mais novo trabalho discográfico. Nesta quarta-feira, 10 de abril, a artista fluminense lança 'D'água', seu terceiro álbum solo de estúdio, em uma edição cuidadosa da gravadora Biscoito Fino. O projeto marca uma transição significativa na carreira da intérprete, que emerge dos nichos da MPB para explorar territórios sonoros mais amplos e contemporâneos.
Uma nova direção musical
Nascida em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, em maio de 1989, Julia Vargas construiu sua trajetória no universo da Música Popular Brasileira desde o lançamento de seu primeiro álbum em 2012. No entanto, com 'D'água', a artista busca novos caminhos para se manter relevante em um mercado musical em constante transformação.
"A sonoridade do disco está mais para o R&B, para o soul, uma coisa mais bluseira, mas rock'n'roll também", explica Julia ao descrever a natureza do álbum, gravado em 2019 sob sua própria direção musical. A produção conta com a colaboração de músicos renomados:
- Gabriel Barbosa na bateria
- Gui Marques nos sintetizadores e coprodução musical
- João Bittencourt nos teclados e acordeom
- Marcos Luz no baixo
Repertório que mistura ousadia e tradição
O álbum é composto por nove faixas que demonstram a versatilidade e coragem artística de Julia Vargas. Pela primeira vez em sua carreira, a cantora se apresenta como compositora em três das músicas:
- "Vem" - canção suave que convida a uma viagem romântica
- "Atrás da cortina da pantera" - tema de atmosfera sensual com tons quase lânguidos
- Ambas com música e letra assinadas exclusivamente por Julia
O single de avanço, "Comportamento geral" (original de Gonzaguinha, 1972), já havia indicado essa nova direção. Julia desvia a música da cadência tradicional do samba para evidenciar, com potência vocal, "o esmagamento cotidiano do cidadão brasileiro pela estrutura social".
Parcerias significativas e regravações corajosas
O álbum apresenta colaborações importantes, como a parceria com Duda Brack em "Pavio", blues com discurso feminino contemporâneo, e com Roberta Sá no xote "Sinceramente", composição de Khrystal e Moyseis Marques.
Julia Vargas demonstra particular coragem nas escolhas de regravações. Ela faz desabrochar "Flor lilás" (original de Luhli, 1972) - música até então nunca revisitada do repertório da dupla Luhli & Lucina - e encara "Maluca" (Luís Capucho, 1993) ao lado de Zélia Duncan. Esta última gravação celebra o legado de Cássia Eller, que popularizou a música em 1999.
"'D'água' é um grito de liberdade. O álbum fala sobre coragem, o desaguar de sentimentos guardados", caracteriza a artista sobre o conceito central do trabalho.
Detalhes que reforçam o conceito
A curadoria do repertório não foi aleatória. Tanto "Flor lilás" quanto "Maluca" são canções que falam de flores e da recorrente chuva em suas letras, justificando sua sequência na disposição das faixas e reforçando a coerência conceitual do álbum.
Outro destaque é "Bomba", parceria do compositor argentino Nicolas de Francesco com Alisson Sant, apresentada em gravação bilíngue que alterna versos em português e espanhol.
Uma artista que merece emergir
Com capa belíssima fotografada por Paulo Veloso e com arte de Jeff Corsi, 'D'água' evidencia que Julia Vargas é uma das grandes cantoras brasileiras da atualidade. A voz sempre colocada com firmeza, as escolhas arrojadas de repertório e a coerência conceitual fazem deste álbum um trabalho que merece atenção em um oceano de produções musicais muitas vezes artificiais.
Como resume a crítica apresentada, Julia Vargas "é grande cantora que merece emergir com força nesse oceano de músicas e intérpretes artificiais", acendendo pavios necessários em um mundo de valores em decomposição através de sua arte autêntica e corajosa.



