Médico e taxista: as profissões paralelas dos sambistas do carnaval carioca
Profissões paralelas dos sambistas do carnaval carioca

Médico e taxista: as profissões paralelas dos sambistas do carnaval carioca

O espetáculo da Sapucaí, com suas fantasias luxuosas, coreografias ensaiadas à exaustão e o som potente das baterias, esconde uma realidade pouco conhecida do grande público. Muitos dos nomes que brilham nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro vivem uma rotina completamente diferente fora do sambódromo, longe do glamour e das luzes do carnaval.

Marlon Lamar: entre plantões médicos e giros na pista

Marlon Lamar, primeiro mestre-sala da Portela, a maior campeã do carnaval carioca, é um exemplo marcante dessa dualidade. No último ano do curso de medicina, ele divide seu tempo entre livros, plantões hospitalares, ensaios coreográficos e viagens constantes. A faculdade fica em São Paulo, mas seus compromissos com a escola de samba são no Rio de Janeiro, transformando a ponte aérea em parte fundamental de sua rotina.

"A palavra que resume é organização. É você ter cada dia programado, cada dia milimetricamente planejado. E a gente vai seguindo. Nisso se passaram seis anos", revela Marlon, destacando a disciplina necessária para conciliar duas paixões tão exigentes.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Entre provas acadêmicas e estágios médicos, ele encontra tempo para ensaiar giros e coreografias complexas. Para o sambista, o sonho de ser médico e o amor pelo samba caminham juntos, pois ambos exigem disciplina total, entrega incondicional e paixão genuína.

"É o amor que nos move, é o amor que me moveu nas noites não dormidas, nos plantões de 24 horas, nas viagens de idas e vindas. O amor pela Portela, pelo carnaval, é o que me sustenta", emociona-se Marlon, demonstrando como essas duas vertentes de sua vida se complementam.

Luiz Casagrande: taxista que comanda a "Pura Cadência"

Já Luiz Calixto, conhecido como Mestre Casagrande, apresenta outra faceta dessa realidade paralela. Há 18 anos à frente da bateria da Unidos da Tijuca, ele conduz a "Pura Cadência" com pulso firme na Sapucaí, mas sua profissão cotidiana é bem diferente: taxista.

"É aqui nas ruas do Rio que eu ganho a minha vida, aqui que é minha luta. Mas é na Unidos da Tijuca que eu tenho maior prazer", afirma Casagrande, que transforma seu táxi em espaço de criação musical.

Muitas das ideias que ecoam na Avenida durante o desfile surgem justamente no trânsito da cidade. "Uma das bossas que eu tenho esse ano pra bateria, a bossa da liberdade, do punho cerrado, saiu daqui", revela o mestre de bateria, mostrando como o cotidiano profissional alimenta sua arte no carnaval.

Rotina intensa que se transforma com a aproximação do desfile

A rotina desses sambistas se intensifica dramaticamente à medida que o carnaval se aproxima. Casagrande participa de todas as etapas preparatórias:

  • Afinação dos instrumentos na quadra da escola
  • Reuniões e ajustes no barracão de fantasias
  • Entrega de adereços e indumentárias
  • Apoio emocional aos ritmistas da bateria

"No dia primeiro de janeiro eu paro, me dedico só à escola. E volto pro táxi só depois de março. Dá pra rodar direitinho dia sim, dia não, mas sempre resolvendo as coisas da bateria. Aqui é minha casa, meu chão. É o que eu gosto de fazer. Sou taxista de profissão, mas sambista por devoção", explica o mestre, destacando como prioriza completamente a escola de samba durante os meses que antecedem o desfile.

Esses exemplos revelam uma faceta pouco conhecida do carnaval carioca: por trás do brilho e da festa, existem profissionais dedicados que equilibram suas paixões pelo samba com carreiras exigentes no dia a dia, demonstrando que a magia da Sapucaí é construída também com muito trabalho, organização e amor além dos holofotes.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar