Escolas de samba de Campinas resistem e planejam retomada de desfiles em 2027 após hiato
O desfile oficial das escolas de samba de Campinas (SP) não ocorre desde 2016, com o último realizado em 2015, quando a prefeitura cancelou os festejos devido a problemas financeiros. Desde então, o número de escolas na metrópole diminuiu significativamente, mas quatro delas continuam ativas e planejam a retomada dos desfiles para 2027. Essas instituições têm sobrevivido graças ao trabalho comunitário e ao voluntariado, mantendo a chama do carnaval acesa na cidade.
Resistência e trabalho comunitário
As quatro escolas que ainda resistem — Leões da Vila Padre Anchieta, Rosas de Prata, Estrela D’Alva e Unidos do Shangai — atravessaram o hiato de uma década sem desfiles oficiais apoiadas em iniciativas comunitárias. Elas mantêm oficinas de percussão, dança e corte e costura para a confecção de fantasias, envolvendo voluntários que dedicam seu tempo sem remuneração. "Eu entendo uma escola de samba como uma escola, você tem que dar aulas o ano todo, tem que ter um ano inteiro de desenvolvimento, e o desfile é só um resultado", explica Elizeth Moscardin, presidente da Leões da Vila Padre Anchieta e representante das escolas campineiras. "É tudo voluntariado. Nossos mestres de bateria, eles não recebem pra dar aula. Eles fazem gratuitamente, por acreditar no propósito", acrescenta.
Elizeth destaca que, devido ao longo período sem desfiles, apenas quatro escolas sobreviveram entre as mais de 15 que já existiram em Campinas. "As escolas que não tinham um trabalho de comunidade não se mantiveram, elas não conseguiram se sustentar até aqui", afirma. No passado, as escolas já enfrentavam dificuldades financeiras, com repasses de recursos chegando em cima da hora e inviabilizando o planejamento anual. "A gente ficava com a dívida ali, esperando chegar o próximo ano. Isso aconteceu muitas vezes, meu pai vender televisão, vender geladeira, carro, pra poder pagar esse tipo de dívida", relembra.
Estratégias de sobrevivência e engajamento
Para gerar receita, as escolas organizam eventos próprios, como feijoadas, rifas, bingos e festas temáticas. Cada uma mantém, em média, 70 participantes ativos, incluindo batuqueiros, diretoria e membros das oficinas, totalizando cerca de 280 pessoas envolvidas. Durante os anos sem desfile oficial, elas criaram ou reforçaram blocos de rua para continuar circulando na cidade, como o bloco Carna Shangai, que ocorre em eventos específicos.
Planejamento para a retomada em 2027
A Liga Independente das Escolas de Samba de Campinas havia inicialmente planejado a volta do desfile para 2026, mas isso não se concretizou. A Secretaria de Cultura estabeleceu três condições para garantir a retomada: obtenção de recursos por meio de emendas impositivas, um modelo econômico viável e prestação de contas públicas. Elizeth afirma que o desfile voltará a acontecer em 2027, e as escolas estão trabalhando para conseguir a verba necessária através das emendas impositivas.
Além disso, as oficinas e a confecção de fantasias já estão voltadas para a realização do desfile, e as escolas pretendem captar recursos por meio de cachês artísticos. "A gente quer mostrar como estamos engajados, e não queremos botar dinheiro no bolso. A gente quer fazer um bom trabalho e retornar esse dinheiro pra dentro da comunidade", diz Elizeth. Ela também menciona que as escolas preferem fazer a retomada no Centro de Campinas, utilizando a Avenida Francisco Glicério como trajeto simbólico. "Essa esperança que tem batido no nosso coração tá movendo a gente mais, né? Teremos desfile ano que vem", comenta, expressando otimismo para o futuro do carnaval na cidade.



