Estudante de jornalismo é eleita a 45ª Deusa do Ébano do Ilê Aiyê em Salvador
Carol Xavier é eleita a 45ª Deusa do Ébano em Salvador

A estudante de jornalismo Carol Xavier, de 27 anos, conquistou o título de 45ª Deusa do Ébano do Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro do Brasil. A coroação aconteceu durante a Noite da Beleza Negra, realizada entre a noite de sábado (17) e a madrugada de domingo (18), na Senzala do Barro Preto, em Salvador.

Uma trajetória de persistência e representatividade

Moradora do bairro de Sussuarana, Carol Xavier já havia concorrido outras duas vezes ao cobiçado título. Sua trajetória nos blocos afro inclui ter sido princesa no Carnaval de 2024 e rainha do Malê Debalê, outro importante bloco do país. A cerimônia de coroação contou com a presença ilustre da ministra da Cultura e cantora, Margareth Menezes, que posou ao lado da nova rainha e de suas princesas, Sarah Moraes e Stephanie Ingrid.

Além dos estudos, Carol é professora de dança afro infantil e empreendedora. O manto que simboliza seu reinado foi recebido das mãos da Deusa do Ébano de 2025, Lorena Bispo. A eleição contou com a participação de 15 candidatas que almejavam representar o Ilê Aiyê no Carnaval de 2026.

45 anos ressignificando a beleza negra

O concurso Deusa do Ébano chegou à sua 45ª edição consolidando uma trajetória poderosa de ressignificação e resgate da autoestima da população negra de Salvador, com foco especial na comunidade do Curuzu, berço do Ilê Aiyê. Mais do que um título, a iniciativa criou uma rede afetiva de reafirmação da identidade, marcando a vida de inúmeras mulheres.

Dete Lima, estilista das deusas há quase cinco décadas, aos 72 anos, testemunha a força transformadora do projeto. "Elas saem muito mais fortes. No dia do concurso, quando estou vestindo cada uma delas, elas falam que estão ali representando a mãe delas, a avó... são casos verdadeiros, que emocionam. Elas choram e eu também choro", relata.

Desde 1975, o concurso passou por mudanças significativas. A partir de 2004, passou a incluir um "dia de princesa", onde as finalistas ficam em um hotel na véspera, vivendo uma imersão que fortalece os laços entre elas. Jaci Trindade, coordenadora do evento há 22 anos, destaca a importância desse processo para o autorreconhecimento. "Era uma dificuldade elas entenderem que são mulheres pretas, que precisavam se reconhecer como tal e elevar a autoestima", afirma.

Suporte emocional e legado ancestral

Nos últimos anos, a organização percebeu a necessidade de oferecer suporte psicológico especializado às candidatas, que muitas vezes carregam o peso de representar os sonhos de famílias e comunidades inteiras. Casos de ansiedade e crises de pânico levaram à contratação de uma psicóloga, que desde o ano passado trabalha para ajudar as mulheres a administrar as pressões.

Lorena Xavier, vencedora do título em 2025, enfatiza o papel da sabedoria ancestral e de figuras como Mãe Hilda Jitolu, matriarca do Ilê Axé Jitolu, na sustentação do projeto. Ela também ressalta o trabalho transformador de Dete Lima: "Ela é a pessoa responsável por promover a autoestima nessas mulheres. Ela não só nos veste, mas ela constrói, comunica e convoca uma história".

Além do apoio emocional, as finalistas recebem qualificação profissional, com oficinas de presença digital, dança afro e cuidado emocional, garantindo que saiam do concurso mais preparadas para suas carreiras, independentemente do resultado final.

Um compromisso que vai além do título

O impacto do Deusa do Ébano transcende a noite da coroação. Como um concurso que não segue padrões europeus, ele celebra a beleza negra e promove transformação social. "Uma vez deusa, para sempre deusa", diz um ditado da comunidade, refletindo o compromisso duradouro das eleitas.

Para Lorena Xavier, a longevidade do evento se deve à autocelebração e ao fortalecimento mútuo. "É um lugar onde mulheres negras se celebram, visualizam e conseguem entender que nossos sonhos são grandiosos e podem se realizar", conclui a rainha de 2025, destacando o papel histórico da Noite da Beleza Negra na transformação de vidas.