Carnaval Inclusivo no Anhembi: Surdos, Cegos e Autistas Vivem a Folia com Acessibilidade
A vibração do samba atravessa o chão da avenida, ecoa no corpo e transforma o carnaval em uma experiência que transcende som e imagem. No Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, histórias de amizade, família e pertencimento demonstraram que os desfiles das escolas de samba da capital podem e devem ser acessíveis para todos.
Amigos Surdos Sentem o Ritmo da Avenida
Na área de inclusão disponibilizada pela prefeitura, cinco amigos surdos chamavam atenção pela animação contagiante. Conhecidos desde a infância e formados juntos na capital paulista, eles decidiram viver o desfile lado a lado, sambando, sorrindo e acompanhando cada detalhe através da vibração da bateria.
Luiz Roberto Pires Amaral, auxiliar administrativo, e Natália Maria Moura, analista bancária, ambos surdos, compartilharam sua emoção: "A acessibilidade aqui está muito fácil. Tem um intérprete que vocês estão vendo aqui. É muito ruim se não tiver comunicação. Então, é melhor com comunicação. É nossa primeira vez e estamos emocionados. Muito feliz de estar aqui".
Para eles, a surdez não impede o aproveitamento do carnaval. Mesmo sem ouvir o samba, o grupo sente o ritmo, a vibração e a energia da avenida, sensações que tornam a experiência completa e memorável.
Menino Autista Apaixonado pelo Carnaval
Poucos metros adiante, outra cena emocionava quem passava pelo espaço. O pequeno Rio Sora, de 8 anos, acompanhava atento o desfile ao lado da mãe, Luciana Campos. Autista e apaixonado por arte urbana, grafite, São Paulo e carnaval, seu amor pela festa começou pela televisão e ganhou vida na avenida.
"A primeira vez foi o ano passado, que ele viu pela TV, e a gente pensou em testar [pessoalmente]. A gente veio com ele, trouxe abafador, mas ele desistiu de usar porque o som da bateria ele curte muito. Ano passado ele ficou até 4h30", afirmou a mãe.
E complementou: "Eu acho o espaço incrível porque traz a possibilidade de incluir mais pessoas para o carnaval. Não é porque você tem uma deficiência, que você não curte. Isso aqui é uma festa maravilhosa".
Audiodescrição para Pessoas Cegas
O espaço também acolheu pessoas cegas e com deficiência visual, que acompanharam o desfile através do serviço de audiodescrição, transformando imagens, cores, fantasias e movimentos em palavras descritivas.
Maria Roseli, cega, expressou sua satisfação: "Audiodescrição é maravilhosa. A gente consegue entender tudo o que está acontecendo. Eu consigo receber a emoção. É muito legal".
Roselene de Souza Celoto, também cega e desfilante da escola de samba Rosas de Ouro há 16 anos, compartilhou sua expectativa: "Minha expectativa é maravilhosa. Eu espero que eu consiga ver, porque a audiodescrição nos permite enxergar o que está acontecendo. Conforme ela descreve como está a alegoria, a gente imagina na nossa mente o que ela está falando. É muito legal".
Profissional Dá Voz à Avenida
Quem dá voz à avenida para o público com deficiência visual é Vanessa Aparecida Campos, de 31 anos, profissional de audiodescrição há cinco anos e em seu segundo carnaval no Anhembi.
"É uma emoção sempre muito grande estar aqui porque a gente pode assistir ao desfile, descrever tudo. A gente se preocupa em descrever as fantasias, os detalhes, as cores, passar tudo isso para as pessoas com deficiência visual. Até porque, eles fazem questão de saber desses detalhes e também tem o fato de que muitas pessoas com deficiência visual perdem a visão já na fase adulta. Então, eles têm memória das cores, dos movimentos, e a gente ajuda a trazer novamente essa memória", explicou a profissional.
Evolução da Comunicação Inclusiva
O avanço da estrutura e da comunicação foi destacado pelo ator surdo Léo Castilho, que acompanhava o desfile na área inclusiva com seus amigos de infância.
"O espaço está evoluindo. Eles adaptaram a comunicação para as pessoas com deficiência, para os cegos. Isso tudo foi pensado. Eu percebi pessoas que sabem libras também. Isso é muito bom", afirmou.
Sobre o que mais gosta no carnaval, ele resumiu o sentimento que tomava conta do espaço: "Então, eu gosto do samba, da cultura brasileira, sabe? Dessa questão da dança, a letra das músicas. Apesar do fato de não ouvir, eu sinto como todo mundo. Sinto a energia".
Como Funciona a Área Inclusiva no Carnaval de SP
As ações de acessibilidade fazem parte das iniciativas da Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED). Durante o carnaval, a pasta promove projetos que ampliam o acesso à cultura e garantem que pessoas com deficiência possam viver plenamente a experiência da folia.
- Samba com as Mãos: Traduz os sambas-enredo dos Grupos Especial e de Acesso I para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), com vídeos publicados nas redes sociais da Secretaria (@smpedsp).
- Audiodescrição: Serviço transmitido em tempo real pelo YouTube da SMPED, direto de uma cabine instalada no Sambódromo para pessoas cegas e com deficiência visual.
- Central de Intermediação em Libras (CIL): Ganhou um ícone exclusivo para o Carnaval 2026 no aplicativo CIL-SMPED, permitindo que pessoas surdas e com deficiência auditiva acionem serviços de emergência através de videochamadas com intérpretes de Libras.
O aplicativo é gratuito, funciona 24 horas por dia, não consome dados móveis e está disponível para Android e iOS. Na avenida, a acessibilidade transforma o desfile em pertencimento genuíno. Entre vibrações, palavras sinalizadas e imagens descritas, o carnaval paulistano demonstra que a festa só é verdadeiramente completa quando é para todos, sem exceções.



