Carnaval 2026 em São Paulo enfrenta críticas por atrasos e falta de diálogo
A menos de um mês do início oficial da folia, a Prefeitura de São Paulo ainda não divulgou os trajetos, datas e horários dos blocos de rua para o Carnaval 2026. Organizadores das agremiações carnavalescas veem uma demora significativa na organização e cobram mais transparência e diálogo com a gestão municipal.
Falta de previsão gera incerteza para planejamento
Os coordenadores dos blocos argumentam que a ausência de uma programação oficial dificulta o planejamento financeiro e a captação de recursos essenciais para a realização dos eventos. "Se o bloco não sabe se vai sair, não consegue vender cota de apoio nem se organizar financeiramente", afirma José Cury Filho, coordenador do Fórum Aberto dos Blocos de Carnaval de São Paulo, que reúne aproximadamente 200 agremiações.
No Guia de Regras e Orientações do Carnaval 2026, a prefeitura havia informado que a lista de blocos seria publicada no Diário Oficial no dia 28 de novembro de 2025. Contudo, essa publicação não ocorreu na data prevista, aumentando a ansiedade e a insegurança entre os organizadores.
Críticas à falta de participação popular nas decisões
Em setembro do ano passado, a prefeitura criou a Comissão Especial de Organização do Carnaval de Rua 2026. No entanto, o grupo é formado exclusivamente por secretarias e órgãos municipais, sem a participação de representantes dos blocos ou da comunidade carnavalesca.
Para Zé Cury, as decisões da gestão do prefeito Ricardo Nunes são tomadas sem considerar a experiência prática de quem faz o carnaval de rua acontecer. "O diálogo está absolutamente esquecido. Não há uma autoridade constituída que considere a cultura do carnaval eleita para falar com os coletivos de blocos", reforça o coordenador.
Thiago França, fundador da Espetacular Charanga do França, complementa essa visão. "Estou indo para o meu 11º carnaval, e é a quarta gestão. Quem está há dez anos fazendo carnaval sou eu. Quem sabe fazer sou eu, são os blocos que sabem fazer", destaca França, criticando a falta de escuta em relação aos fazedores de cultura.
Questionamentos sobre o modelo de fomento municipal
Os organizadores também questionam o modelo de fomento oferecido pela prefeitura. Neste ano, apenas 100 blocos foram selecionados para receber apoio financeiro de até R$ 25 mil cada, totalizando R$ 2,5 milhões em recursos municipais.
Thais Haliski, organizadora do bloco Acadêmicos da Cerca Frango, relata que os custos para colocar um bloco na rua ultrapassam facilmente R$ 60 mil, valor muito superior ao fomento disponível. "O recurso não cobre nem metade do custo real", afirma ela, destacando a necessidade de os blocos buscarem patrocínios e promoverem festas pagas ao longo do ano.
Essa dinâmica, segundo os organizadores, tem transformado o carnaval em um negócio obrigatório, com impactos diretos na identidade cultural dos blocos. "A cada ano que passa, a gente tem que fazer mais festas, mais dinheiro precisa entrar. Eles exigem contrapartidas que muitas vezes descaracterizam os blocos", desabafa Thais.
Impacto econômico versus retorno em políticas públicas
No ano passado, o carnaval da cidade de São Paulo atraiu 16 milhões de foliões e movimentou impressionantes R$ 3,4 bilhões, com a criação de 50 mil empregos diretos e indiretos. Apesar desse impacto econômico expressivo, os organizadores consideram o retorno em políticas públicas para os blocos extremamente baixo, representando menos de 0,07% do total movimentado pela festa.
Tanto Thais quanto Cury defendem a criação de uma política pública permanente para o carnaval de rua, com regras claras, planejamento antecipado e participação direta dos blocos nas decisões. Eles argumentam que a ausência de uma legislação específica faz com que cada gestão municipal altere o modelo da festa, gerando insegurança e desgaste para quem organiza.
Posicionamento da prefeitura de São Paulo
Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo informou que o cronograma do Carnaval de Rua 2026 segue a programação divulgada desde setembro do ano passado e que não há qualquer atraso. A gestão municipal destacou que os blocos com mais de 15 mil participantes tiveram até 15 de janeiro para enviar o Plano de Operação e Segurança, que está em fase de validação pelos órgãos competentes.
A prefeitura também afirmou manter a Central Permanente do Carnaval, um canal direto de diálogo e orientação com atendimento presencial, por telefone, WhatsApp e e-mail. Sobre o fomento, a gestão ressaltou que os R$ 2,5 milhões destinados aos blocos permitem que até 100 agremiações recebam R$ 25 mil cada para produção, desenvolvimento e difusão das atividades do Carnaval de Rua em 2026.
Os organizadores, no entanto, continuam cobrando mais transparência e participação nas decisões que moldarão o futuro do carnaval paulistano, uma festa que define não apenas o entretenimento, mas a identidade cultural da cidade.