‘Vai, Brasa!’: Nike insere termo em uniforme da Seleção e reacende debate histórico
Uniforme da Seleção com 'Brasa' reacende debate histórico e linguístico

‘Vai, Brasa!’: Nike insere termo em uniforme da Seleção e reacende debate histórico e linguístico

O novo uniforme oficial da Seleção Brasileira, lançado pela Nike nesta segunda-feira (23), trouxe um detalhe que aqueceu as discussões nas redes sociais: a palavra “Brasa” bordada nas meias, logo abaixo da logo da marca. A escolha estética reavivou um antigo debate sobre a origem etimológica do nome Brasil e levantou a questão: alguém realmente fala “Brasa” para se referir à seleção canarinho?

As teorias sobre a origem do nome Brasil

Ricardo Cavaliere, filólogo, linguista e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), explica que a origem do substantivo brasil é controversa, com várias hipóteses sustentadas por etimologistas. Três correntes principais se destacam:

  1. Corrente mais consagrada: O nome do país está associado ao pau-brasil, árvore encontrada no território. A cor avermelhada da madeira lembra brasa, mas não há uma associação direta. O historiador Capistrano de Abreu afirma que o nome da mercadoria “engoliu” o espiritual “Ilha de Vera Cruz”.
  2. Corrente da cor avermelhada: Alguns estudiosos, como o catalão Joan Corominas e o alemão Volker Noll, consideram que o termo germânico ocidental “brasa” (fogo, brasa) é a base. Eles argumentam que a palavra brasil já existia no vocabulário românico para designar corantes vermelhos vindos do Oriente muito antes de 1500.
  3. Corrente mitológica: Menos difundida, sugere que mapas anteriores à chegada dos portugueses já usavam “Brasil” para designar uma “ilha” diferente. Na mitologia irlandesa, Hy-Brasil seria uma ilha que aparecia apenas um dia a cada sete anos, com possível derivação do celta “bress” (abençoar).

Cavaliere ressalta que a atribuição do nome brasil a uma tintura avermelhada era anterior à descoberta do pau-brasil, mas isso não assegura que o nome do território venha dessa tradição latina.

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Quem realmente fala ‘Brasa’ para a Seleção?

Um levantamento de corpus linguístico do português, com base em termos empregados na web nos últimos anos, mostra que a palavra “brasa” é usada no Brasil, Portugal, Angola e Moçambique em contextos relacionados a:

  • Fogo
  • Carne
  • Pão
  • Receita
  • Ferramentas como ferro e fogão
  • Ingredientes como cebola e alho

Não há registros relacionados a jogos de futebol ou torcidas pela Seleção Brasileira. Nas redes sociais, predominam piadas sobre a escolha da Nike e afirmações de que ninguém grita “Vai, Brasa!”. No entanto, há posts isolados de influenciadores ou veículos de mídia, como:

  • CazéTV, em 2025 e 2026, com “É o Brasa abrindo o placar” (vôlei de praia) e “Pra sempre, Brasa” (convocação da Seleção)
  • Pedro Certezas, com a comemoração “é o Brasa, po**a!”, em janeiro de 2026
  • Comitê Olímpico Brasileiro (COB) em 2023, em campanha para as Olimpíadas de 2024 em Paris, lançando a frase “É o Brasa”

Cavaliere é categórico: “O que seguramente não é plausível é admitir que o brasileiro se refere ao país como ‘brasa’, ou que incentiva a seleção de futebol com a expressão ‘vai, brasa!’. Parodiando Nelson Rodrigues, diria que nenhum brasileiro vivo ou morto torceria pela seleção com uma expressão tão ridícula.”

Daniel Gomes da Fonseca, professor de Linguagens do Curso Anglo, afirma que o uso da palavra no contexto do esporte parece ter sido uma iniciativa da própria Nike. Ele ressalta que, diante da diversidade linguística, é “impossível cravar”. “A seleção, no Brasil, país ‘futebocêntrico’, não precisa ter apelido, nem ser adjetivada. No dia a dia, a de futebol é ‘a seleção’. As outras são adjetivadas: seleção de vôlei, de basquete etc. O apelido legado pela tradição é a ‘canarinho’”, explica. “‘Brasa’ era gíria muito usada na década de 60, para algo incrível, muito legal, agitado ou excelente, tendo sido muito presente na música e na cultura da Jovem Guarda.”

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Brazil ou Brasil? A questão da grafia

Outra curiosidade histórica: no século XIX, mesmo no Brasil, o nome do país era também escrito com “z”. A Constituição de 1824 e outros registros oficiais da época traziam “Brazil” no texto. Segundo a ABL, o primeiro registro formal sobre a grafia correta ocorreu em 11 de janeiro de 1897, quando José Veríssimo propôs tornar “Brazil” o termo oficial.

Machado de Assis, então presidente da ABL, montou uma comissão para analisar o debate. O resultado só chegou em 1922, por proposta de Coelho Neto, e desde então a grafia “Brasil” passou a ser a oficial. Em 15 de junho de 1931, Getúlio Vargas assinou um acordo entre a ABL e a Academia das Ciências de Lisboa para fixar que a grafia seria com “s” tanto aqui quanto em Portugal, formalizado pela Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945. Os países de língua inglesa, não contemplados no acordo, mantiveram “Brazil” com z.

Assim, o novo uniforme da Nike não apenas veste os jogadores, mas também veste de polêmica uma discussão que mistura história, linguística e a paixão nacional pelo futebol.