Marcela Rafael: A força feminina que transforma o jornalismo esportivo brasileiro
Engana-se profundamente quem vê na tela da ESPN apenas uma mulher de rosto bonito e fala mansa apresentando o SportsCenter. Marcela Rafael Gonçalves Kampff de Melo, a pernambucana do Recife que chegou a São Paulo em 2009, é muito mais do que aparências. Com 15 anos de emissora completados em 2025 e passagens por Band, SBT e Globo Nordeste, ela construiu uma carreira marcada por competência e personalidade forte.
Da terra do frevo aos estúdios da ESPN
A mudança de Recife para São Paulo em 2009 não foi apenas geográfica, mas um divisor de águas profissional. "Vim para São Paulo porque meu marido, Andrei, estava aqui. Iríamos nos casar e não dava mais para continuar em Recife", revela a jornalista. A transição coincidiu com sua entrada na ESPN, fato que ela comemora no mesmo dia do aniversário da cidade paulista.
Antes de alcançar o posto de âncora do principal programa esportivo do canal, Marcela precisou demonstrar coragem e atitude diante do patrulhamento constante que as mulheres enfrentam no jornalismo esportivo. Mãe de Theo, 12 anos, e Lara, 9, casada com o jornalista e advogado Andrei Kampff, ela equilibra vida pessoal e profissional com a mesma maestria com que comanda os debates esportivos.
O longo caminho das conquistas femininas
Com 22 anos de carreira iniciados em Recife entre 2003 e 2004, Marcela Rafael testemunhou a transformação lenta, porém significativa, da presença feminina no jornalismo esportivo. "Quando comecei, pessoas da minha família falavam: 'Ah... mas esporte? Você vai fazer TV, esporte? Nossa... mas que coisa'!", recorda.
Hoje, ela se vê como pioneira que abriu portas para novas gerações. "Só em um grupo de WhatsApp do qual participo, são 500 mulheres jornalistas esportivas", comemora. A evolução foi gradual: primeiro nas redações, depois nas reportagens de rua, seguindo para apresentação e, mais recentemente, para narração e comentários.
Machismo e resistência: batalhas diárias
A resistência do público, especialmente masculino, ainda é uma realidade. Marcela analisa: "Culturalmente estamos acostumados a ouvir homens narrando, e quando ouvimos mulheres estranhamos. 'Nossos ouvidos não estão acostumados', eles dizem. Acho que é uma desculpa".
Ela destaca que as críticas diminuíram nas reportagens, mas persistem nas funções de narração e comentários. "Há 25 anos, uma mulher começava na reportagem e muitos ficavam de cara feia. Pensava que ela só estava ali porque era bonita", relembra sobre os preconceitos do passado.
A pressão de não poder errar
Para as mulheres no jornalismo esportivo, a margem para erros é infinitamente menor. "Conviver com essa pressão é ficar pensando: 'Meu Deus, preciso estar melhor preparada porque vou ser mais criticada do que os homens na minha profissão'", desabafa Marcela.
Essa realidade a tornou incansável nos estudos: "Sei que preciso estudar e estudar muito, ler, passar o dia inteiro pesquisando, ouvindo programas de esportes, de futebol, assistindo aos jogos". Para ela, essa pressão excessiva é parte intrínseca da experiência feminina na profissão.
Casos emblemáticos de desrespeito
A jornalista não poupou críticas ao episódio envolvendo Renata Mendonça e o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista. "Foi uma falta de respeito tão infantil, uma falta de respeito que não condiz com um presidente de um clube do tamanho do Flamengo", afirmou.
Sobre a polêmica envolvendo Neymar e o termo "chico", Marcela foi enfática: "A frase dita carrega um histórico de preconceito a uma questão biológica das mulheres. O Neymar não precisava entrar nesse assunto, deveria ter mais cuidado ao falar".
Torcedora assumida do Náutico
Discretamente, Marcela se assume torcedora do Náutico e comemorou efusivamente o acesso do time à Série B ao lado dos filhos. "Sou torcedora do Náutico, sempre fui... mas sem ficar falando o tempo todo. Se você reparar, sempre há algo do Náutico presente na minha vida", confessa.
Ela defende que os jornalistas transmitam sua cultura esportiva aos filhos, mas alerta sobre os limites entre torcida e profissionalismo: "Antes de ser torcedor, você precisa ser jornalista. Cada vez mais vemos profissionais colocando esse lado torcedor acima de tudo".
Nordeste e a luta por espaço na mídia
Sobre a menor visibilidade dos clubes nordestinos na mídia nacional, Marcela é realista: "Isso é algo bem difícil de mudar. Aconteceram algumas mudanças porque vemos times do Nordeste tendo mais sucesso em grandes competições, mas, mesmo assim, ainda é pouco".
Ela acredita que apenas o sucesso consistente em competições importantes poderá alterar esse cenário: "Quando começarem - e continuarem - todos os anos chegando à parte de cima da tabela do Campeonato Brasileiro, e participando de competições continentais, a tendência é que se fale mais".
No comando do SportsCenter
Apresentar o SportsCenter no horário nobre ao lado de comentaristas renomados como André Kfouri, Gustavo Zupak e Felipe Motta é motivo de orgulho. "Me sinto honrada. Fico muito feliz de hoje ser apresentadora do programa — algo que realmente me deixa muito orgulhosa", afirma.
Sobre os haters das redes sociais, desenvolveu estratégias: "Leio alguns, entendo, respeito a opinião e, quando há respeito, temos debates saudáveis. Quando não há respeito, bloqueio - e está tudo certo".
Momento mágico na Disney
A experiência de comemorar os 25 anos do SportsCenter no Magic Kingdom da Disney em 2025 foi marcante. "Imagine você apresentando o SportsCenter e, ao olhar para trás, ver o castelo da Cinderela... realmente é incrível", descreve com emoção.
Dos 25 anos do programa, 15 são de sua trajetória na ESPN. "É algo que me deixa muito feliz e muito orgulhosa", finaliza a jornalista que, com sangue quente pernambucano e competência incontestável, continua abrindo caminhos para as mulheres no jornalismo esportivo brasileiro.



