Eliminação da Albânia ameaça presença histórica de técnicos brasileiros na Copa do Mundo
Eliminação da Albânia ameaça técnicos brasileiros na Copa

Eliminação albanesa pode encerrar era de técnicos brasileiros em Copas do Mundo

A derrota da Albânia para a Polônia nesta quinta-feira (26), em Varsóvia, pelas semifinais da repescagem europeia para a Copa do Mundo, não apenas frustrou o sonho de 2,4 milhões de albaneses de ver seu país na primeira participação mundialista da história, mas também representou um potencial golpe significativo para o futebol brasileiro. Com a equipe comandada pelo ex-lateral e atual técnico Sylvinho sendo eliminada, a Copa de 2026 pode se tornar a primeira edição em quase um século do torneio a não contar com um único treinador brasileiro nos bancos de reservas.

Uma tradição que pode chegar ao fim

Desde 1930, quando a seleção brasileira foi dirigida pelo paulistano Píndaro de Carvalho Rodrigues, sempre houve a presença de pelo menos um técnico brasileiro em todas as 21 edições seguintes da Copa do Mundo. A primeira vez com dois deles ocorreu em 1966, quando Vicente Feola comandou o Brasil e Otto Glória levou Portugal ao terceiro lugar, a melhor colocação da história portuguesa até hoje. A partir daí, tornou-se comum ver brasileiros à frente de outras seleções:

  • Didi pelo Peru em 1970
  • Alexandre Guimarães pela Costa Rica em 2002 e 2006
  • René Simões pela Jamaica e Paulo César Carpegiani pelo Paraguai em 1998
  • Zico, Marcos Paquetá e Luiz Felipe Scolari, que dirigiu Portugal em 2006

O recordista absoluto é Carlos Alberto Parreira, que atuou como treinador em seis Copas: duas pelo Brasil (1994 e 2006), uma pelo Kuwait (1982), uma pelos Emirados Árabes Unidos (1990), uma pela Arábia Saudita (1998) e a última pela África do Sul (2010).

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Análise de especialistas sobre o declínio

O técnico Paulo Autuori, demitido nesta quinta-feira pelo Sporting Cristal do Peru, falou à reportagem sobre o fenômeno: "Em 2013, mencionei em uma declaração ao jornal O Globo que estávamos defasados em termos de trabalho comparado ao que faziam fora do país. Um ano depois, o Zico ratificou essa minha fala. Depois de ficar muito tempo fora, vi que era necessário abrirmos os olhos".

Autuori, que tem duas conquistas da Copa Libertadoras em seu currículo e extensa experiência internacional, completou: "A sensação que havia no país era de que não precisávamos aprender nada pelo fato de sermos pentacampeões do mundo. A alta quantidade de técnicos estrangeiros, que jamais vou ser contra até por ter sido um imigrante por anos, e a ausência na Copa são consequências".

Fatores que contribuíram para a situação atual

Vários elementos se combinaram para criar este cenário inédito:

  1. A Contratação de Carlo Ancelotti pela CBF em maio de 2025, tornando-o o técnico estrangeiro mais bem pago do mundo após as experiências fracassadas com Fernando Diniz e Dorival Júnior
  2. Nas últimas duas Copas, Tite comandou apenas a seleção brasileira, sem que o país tivesse representantes à frente de outras seleções
  3. O comodismo histórico identificado por especialistas dentro do futebol brasileiro

Paulo César Carpegiani, que dirigiu o Paraguai na Copa de 1998, analisou: "Há pouco tempo, companheiros nossos falaram sobre Ancelotti e foram muito desagradáveis nas respostas. Não penso da mesma forma... Tentamos vários treinadores brasileiros e os resultados não foram bons. Por isso se pensou em um estrangeiro".

O trabalho de Sylvinho na Albânia

Sylvinho assumiu a seleção albanesa em janeiro de 2023 e sua passagem, que deve ser encerrada com o fim do contrato em junho, teve como ápice a classificação para a última Eurocopa - apenas a segunda participação do país na história da competição. Este feito lhe rendeu o prêmio Águia de Ouro das mãos do primeiro-ministro albanês.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Na Eurocopa, a Albânia teve participação elogiada na fase de grupos, dificultando os jogos contra Espanha e Itália, além de conseguir um empate com a Croácia. O técnico levou a Albânia à disputa de sua primeira repescagem na história, em grupo liderado pela Inglaterra, mas não conseguiu superar os poloneses na etapa decisiva.

Perspectivas para o futuro

Autuori destacou que há talento entre os jovens treinadores brasileiros: "Há treinadores brasileiros jovens que não devem nada em termos conceituais e metodológicos a estrangeiros como Sampaoli, Lacarmón, Varini ou outros de fora com qualidade. O meu objetivo é abrir espaço para eles, é isso que me dá brilho nos olhos".

A possível ausência de técnicos brasileiros na Copa de 2026 - que será a maior de todos os tempos com 48 seleções - representa um momento de reflexão profunda para o futebol nacional, que vê uma tradição de quase um século prestes a ser interrompida justamente quando o torneio atinge sua máxima expansão.