Professor supera crises pessoais e transforma vidas através do boxe em projeto social
Boxe como redenção: professor transforma vidas em projeto social

Professor encontra no boxe redenção para transformar vidas em Presidente Prudente

"Tamo junto no ringue e no asfalto". Este é o lema que guia a trajetória de Guilherme Campos de Oliveira Neto, de 42 anos, um professor de boxe que, enfrentando adversidades pessoais e incertezas sobre o futuro, se reinventou por meio do esporte. Proprietário da academia Boxe da Zona Leste, localizada em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, Guilherme compartilhou sua história com detalhes, revelando como superou crises profundas para se tornar uma referência regional e um ponto de cultura ativo na comunidade.

Uma jornada que começou na infância e se consolidou no exterior

A relação de Guilherme com as luvas de boxe iniciou-se precocemente, aos quatro anos de idade, influenciado pelo pai. No entanto, durante décadas, o esporte não ocupava um papel central em sua vida. Foi em um período de moradia na Espanha, entre 2007 e 2009, que ele viveu um processo intenso de autodescoberta. Trabalhando na construção civil e imerso em diversas culturas, Guilherme experimentou uma liberdade que o permitiu desenvolver sua identidade artística de forma plena.

Ao retornar ao Brasil, essa liberdade se materializou na música. Conhecido também como Negro Gui, ele se tornou um dos fundadores das batalhas de rima em Presidente Prudente, erguendo-se como um pilar do movimento hip hop no oeste paulista. Sua carreira musical foi marcada por aberturas de shows para grandes nomes nacionais e viagens por todo o país, consolidando seu nome no cenário artístico.

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Crise pessoal e a busca por um novo caminho

Contudo, após anos de sucesso nos palcos, a vida de Guilherme foi atingida por "golpes" significativos que o obrigaram a recuar. Entre 2015 e 2017, ele enfrentou um período de estagnação profunda. Com o joelho comprometido por uma artrose avançada e pesando 150 quilos, sua saúde e mobilidade estavam severamente afetadas. Foi nesse contexto desafiador que ele buscou no esporte uma forma de recuperação e renovação.

O que começou como uma necessidade física pessoal rapidamente se transformou em uma nova vocação. No final de 2019, Guilherme iniciou treinos caseiros com familiares no fundo do quintal. Ao observar que o boxe despertava interesse e disciplina em pessoas anteriormente sedentárias, ele teve um "estalo" inspirador: criar um projeto social que pudesse oferecer aos jovens da periferia a mesma direção que ele estava reencontrando em sua própria vida.

Nascimento de um projeto social transformador

Sem perspectivas profissionais no período pré-pandemia, Guilherme encontrou no esporte uma maneira de recomeçar. "Eu percebi isso [a importância do boxe] quando ia começar a pandemia aqui no Brasil, chegou em Prudente e tudo parou. Eu precisava ter algum recurso, alguma ocupação, fazer alguma coisa", relatou ele. A partir de treinos improvisados em casa, ele deu início a uma atividade que logo evoluiu para um projeto social voltado à comunidade.

Com o início da pandemia e a interrupção de atividades em diversos setores, o espaço ganhou novos participantes, revelando uma demanda reprimida pelo boxe na cidade. "Assim que eu abri o espaço para outras pessoas de fora, além dos meus parentes, começou a surgir uma demanda muito grande. Na época, era um movimento muito carente na nossa cidade, então teve uma explosão enorme", relembrou Guilherme. Diante do aumento da procura, ele estruturou o projeto, abrindo as portas para crianças, adolescentes e adultos, especialmente moradores de regiões periféricas.

Foco na formação pessoal e valores essenciais

Mais do que ensinar técnicas de luta, o projeto tem como foco central a formação pessoal dos alunos. Segundo Guilherme, o trabalho desenvolvido prioriza valores como disciplina, respeito e responsabilidade. Nesse contexto, o boxe emerge como uma ferramenta poderosa de transformação social. Muitos dos jovens atendidos chegam ao espaço em situação de vulnerabilidade e encontram ali um ambiente de acolhimento e orientação sólida.

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O treinador destaca que, em diversos casos, o local se torna um refúgio diante das dificuldades enfrentadas fora dali, permitindo que os alunos desenvolvam foco e equilíbrio emocional. "Se o cara não tiver vontade de dar o melhor dele, ele não vai chegar a lugar nenhum. Ele vai sentir dor, vai chorar, vai entender que vai ser chato, vai vir treinar de cabeça cheia, vai ter problemas. Tem que ter autocontrole para você poder ter autodomínio", explicou o professor.

Vínculos que transcendem o esporte

A convivência diária na academia cria laços que ultrapassam a relação convencional entre professor e aluno. Em vários casos, Guilherme se torna uma referência familiar para os jovens. Ele conta que já recebeu presentes no Dia dos Pais de alunos que não têm a presença paterna, evidenciando o nível de confiança construído ao longo do tempo. "Essa imagem de pai é a parte que falta na vida deles [alguns alunos]. Eles entendem, vai se encaixando e eu acho bacana isso também", compartilhou.

Essa proximidade se reflete também no acompanhamento fora do esporte, com orientações sobre comportamento, estudos e decisões pessoais. Entre os participantes, os resultados são visíveis tanto no comportamento quanto nos objetivos de vida. Há alunos que iniciaram no esporte buscando defesa pessoal, enquanto outros passaram a enxergar a possibilidade de seguir carreira no boxe.

Boxe como instrumento de redenção e realização

Para Guilherme, a mudança proporcionada pelo boxe não foi apenas profissional, mas profundamente pessoal. Depois de enfrentar dificuldades ao longo da vida, ele encontrou no esporte um novo caminho, que hoje serve de base para transformar a realidade de outras pessoas. Ele resume o papel do boxe em sua vida com a palavra "redenção".

"O boxe representa a 'redenção' na minha vida. Eu não sabia o que ia fazer mais da minha vida em 2019, aí entrou a pandemia, não tinha renda, não tinha nada. Eu nunca imaginava que a solução toda estava nas minhas mãos, literalmente. Descobri isso de uma maneira muito espontânea, me transformei em outro ser humano, sou bem mais feliz hoje em dia", finalizou Guilherme, emocionado.

Atualmente, o Boxe da Zona Leste funciona não apenas como uma academia, mas como um ponto cultural reconhecido, integrando atividades esportivas com ações ligadas à música e à cultura urbana. O projeto continua a oferecer acesso gratuito ao esporte, incluindo treinos e materiais, como uma forma concreta de inclusão e transformação social na periferia de Presidente Prudente.