Reginaldo Faria e a emoção de trabalhar com o filho no cinema
Aos 88 anos, o veterano ator Reginaldo Faria acaba de estrear seu primeiro filme sob a direção de um dos filhos. Em cartaz nos cinemas, 'Perto do Sol É Mais Claro' (2025, distribuído pela O2 Play) é uma obra intimista dirigida por Regis Faria, que retrata a história de um viúvo lidando com o luto e a solidão enquanto resiste aos efeitos do tempo.
Em entrevista exclusiva, Reginaldo e Regis compartilham os bastidores desse projeto que envolveu praticamente toda a família, incluindo os atores Candé e Marcelo, outros filhos do veterano, além da atriz Vanessa Gerbelli, ex-mulher de Regis, no elenco.
Como surgiu a ideia do filme?
Regis Faria revela que a motivação veio do desejo de trabalhar com o pai em um momento profissional mais maduro. 'Sempre admirei o trabalho dele, que me influenciou a vida toda. Comecei a observar a invisibilidade das pessoas mais velhas na sociedade e percebi que, mesmo sendo ativos, meu pai e minha mãe já sentiam esse descarte. Resolvi falar sobre isso, pois o país está envelhecendo e precisamos acolher esses idosos de forma participativa e respeitosa.'
Para Reginaldo, a parceria não foi novidade, já que os dois já haviam trabalhado juntos no teatro. 'Era a continuação de uma junção de ideias, de trabalho e de sentimentos. O personagem é analógico, se recusa a usar computador, assim como eu. Tudo se uniu aos desejos do Regis de fazer o filme no formato que ele fez.'
Autobiografia ou memória familiar?
Reginaldo explica que o filme não é autobiográfico, mas sim uma construção a partir de vivências próprias. 'Emprestei ao personagem experiências que vivenciei durante toda a vida. Não é autobiográfico; é buscar em si aquilo que experimentou para colocar na ficção.'
Já Regis destaca que, embora não fosse a intenção inicial, o projeto acabou se tornando uma memória pessoal. 'Usei cenários reais, como a casa do meu pai, e objetos que fazem parte da vida dele, como pôsteres de filmes antigos e fotos de família. Finalizo o filme com imagens em Super 8 que ele e minha mãe fizeram. Virou uma homenagem para toda a nossa família.'
Por que o preto e branco?
A escolha estética do preto e branco foi deliberada. Regis explica: 'O personagem é analógico, e o preto e branco combina com ele. Além disso, há uma metáfora: assim como as pessoas mais velhas são descartadas, o preto e branco também é muitas vezes preterido. Quis mostrar que pode ser legal, assim como os idosos têm muito a acrescentar.'
Uma família de circo
Com a participação de Marcelo e Candé, além dos netos, o filme reforça a ideia de que os Faria são uma verdadeira 'família de circo'. Reginaldo recorda: 'A paixão pela arte vem desde minha infância, com meu irmão Roberto me usando como modelo. Quando meus filhos nasceram, já encontraram esse ambiente. Levávamos um deles bebê para os estúdios, e ele ficava deitado embaixo do tripé da câmera.'
Regis complementa: 'As crianças, que hoje têm 15, 10 e 8 anos, falam com alegria da experiência. Na época, não entendiam, mas agora dimensionam o alcance do filme e como ele toca as pessoas.'
Envelhecimento e novos projetos
Reginaldo encara o envelhecimento de forma positiva: 'Sinto um rejuvenescimento em mim mesmo. São ciclos que se acabam e ciclos que começam. Estou vivo, inteiro, criando. Claro que tenho angústias, mas a luta continua.'
Questionado sobre novos projetos, o ator revela: 'Fui chamado para a próxima novela das 7 da Globo, que começa a gravar em junho ou julho, e devo entrar em agosto.'



