'A Casa dos Espíritos' ganha série luxuosa no Prime Video filmada no Chile
'A Casa dos Espíritos' estreia série no Prime Video

Isolado entre o mar e a Cordilheira dos Andes, o Chile vive ao sabor dos humores da natureza: entre a beleza de suas paisagens e os terremotos rotineiros — e por vezes brutais —, seus habitantes foram moldados pela resiliência e destinados a recomeços. A mesma descrição se aplica aos personagens do belíssimo livro A Casa dos Espíritos, da autora chilena Isabel Allende, que ganha, na quarta-feira 29, uma adaptação luxuosa feita pela plataforma Prime Video, sendo a primeira em espanhol, seu idioma original, e de fato rodada em terras chilenas — com as imponentes montanhas ao fundo.

Uma obra-prima do realismo mágico

Publicada em 1982, a obra, uma pérola do realismo mágico sul-americano, acompanha quatro gerações de uma mesma família entrelaçadas aos eventos sociais e políticos do Chile — do promissor início do século XX à década de 1970, marcada pelo golpe militar. A luta contra a opressão política, das oligarquias ao regime antidemocrático, a desigualdade social e o machismo são temas que a autora expõe sem deixar de lado hábitos tipicamente locais, como o gosto por festas, as paixões avassaladoras e o flerte com uma espiritualidade solta, que vai da missa católica às mesas brancas.

Elenco e personagens

O ator Alfonso Herrera interpreta Esteban Trueba, um fazendeiro bronco, amado por alguns, odiado por muitos. Ele é casado com Clara, papel de Nicole Wallace na juventude e de Dolores Fonzi na maturidade. Ao contrário do marido, Clara é leve, doce e dona de dons místicos, entre eles a habilidade de ver o futuro e falar com espíritos. Em 1993, o casal foi interpretado no cinema americano por Meryl Streep e Jeremy Irons, filme que ajudou a aumentar a popularidade do livro — o qual soma 70 milhões de cópias vendidas. Ao mesmo tempo, angariou críticas por descaracterizar o original: taciturna e gótica, a produção perdeu o humor ácido da autora que se manifesta em meio às dificuldades — postura contraditória, mas comum aos que vivem abaixo da linha do Equador.

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Produção e cenário

Em visita ao set de filmagens em Santiago, capital do Chile, a reportagem de VEJA observou esse contraste em cenas rodadas no endereço que serve como cenário principal. O centenário Palácio Bruna, imóvel de três andares no centro histórico da cidade, recebeu pouquíssimas modificações para ser o “casarão da esquina”, como é chamada no livro a residência que abriga os herdeiros e agregados de Clara e Esteban. Na série de oito episódios, é notável a qualidade estética da produção, assim como o frescor da adaptação e do elenco dedicado. “É importante que reconheçam a força da indústria latina. Temos profissionais excelentes”, disse Fernanda Castillo, que interpreta Férula, papel que foi de Glenn Close no filme americano.

Significado mais profundo

A série abre espaço para personagens que não cabiam no filme, além de materializar os tais espíritos nada assustadores com quem Clara se comunica — no livro, eles são apenas citados ou estão subentendidos nas longas distrações da moça. Se inicialmente os seres do além parecem ser a razão para o nome A Casa dos Espíritos, com o avançar da trama nota-se um significado mais profundo: os fantasmas dignos de medo são os de carne e osso, que se autodenominam donos da verdade, da razão e do poder — e o legado deixado por eles. Isabel Allende sabe do que fala. Ela vem de uma família de políticos polarizados, com membros conservadores e socialistas. Seu parente mais conhecido foi o tio Salvador Allende, presidente que se matou durante o golpe de Augusto Pinochet, em 1973. Isabel precisou fugir de seu país. Trocou o jornalismo pelos romances nos anos 1980, para expurgar os traumas do passado. Assim nasceu A Casa dos Espíritos, sua estreia na literatura. Vivendo nos Estados Unidos, alegra-se, agora, de ver a obra ganhar uma releitura no país de origem. Nada como voltar às raízes.

Entrevista com os atores

Alfonso Herrera e Nicole Wallace falam sobre a série

Esteban é controlador, rígido e violento. Como interpretá-lo sem fazer dele um vilão?

Herrera — Tentei humanizá-lo sem julgamentos. Todos temos vícios, virtudes, e Esteban não é exceção. É um homem de muitas lacunas, com uma carência paterna brutal e que nunca foi bom o suficiente para a mãe.

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A personagem Clara já foi vivida por Meryl Streep. O que assimilou sobre ela?

Nicole — Notei que, apesar de ter visões do futuro e de falar com espíritos do passado, ela está sempre com os pés no presente. Ela é muito empática, não vê as pessoas como boas ou más. Ela vive o hoje e, a partir disso, tenta curar, cuidar e amar.

Essa é a primeira adaptação em espanhol da obra, feita no Chile. Por que essa versão importa?

Nicole — A essência da trama é latina. Fazer a série em espanhol, no Chile, traz uma conexão maior com o livro.

Herrera — Eu sou mexicano e vejo na história do livro paralelos com meu país. O filme americano é ótimo, mas tem um olhar frio. Essa versão será mais fresca e calorosa.

Qual é a relevância dessa história para os dias de hoje?

Herrera — A polarização política que vemos hoje está presente neste livro escrito há quarenta anos. O Esteban, por exemplo, terá de decidir se prefere a política ou a união familiar.