Após quase uma década no ar, Stranger Things chegou ao fim com um episódio final de mais de duas horas, lançado na véspera de Ano Novo. Nos Estados Unidos, o desfecho épico teve até exibição especial nos cinemas. No entanto, as escolhas narrativas dos criadores, os irmãos Matt e Ross Duffer, para encerrar a trama de maior sucesso da Netflix não agradaram a todos, dividindo profundamente o público e gerando uma onda de debates nas redes sociais.
O Sacrifício e a Dúvida: O Fim de Eleven
O episódio final, carregado de expectativas, mostrou a protagonista Eleven (Millie Bobby Brown) tomando uma decisão radical. Em meio à destruição do Mundo Invertido, ela parece se sacrificar, explodindo a si mesma junto com o local para salvar todos. A cena foi pensada para ser catártica e trágica.
Contudo, a narrativa toma um rumo ambíguo. No desenlace, Mike (Finn Wolfhard) cria uma teoria de que Eleven teria, na verdade, simulado a própria morte. Segundo ele, ela estaria vivendo de forma isolada, mas feliz, em uma região remota. Os irmãos Duffer deixaram essa brecha aberta, sem confirmar ou negar claramente o destino da personagem.
Essa ambiguidade foi o estopim para a divisão entre os fãs. Uma parte do público abraçou a teoria de Mike, preferindo acreditar em um final mais esperançoso para a heroína que sofreu tanto. Outros, no entanto, viram na possibilidade da morte falsa uma falta de coragem dos criadores.
A Reação Dividida nas Redes Sociais
Nas plataformas digitais, as opiniões se polarizaram. De um lado, espectadores revoltados argumentaram que Eleven, após uma vida de abusos e torturas no laboratório Hawkins, merecia um final feliz ao lado da família que construiu.
"Eles pegaram uma menina que foi abusada, torturada e roubada. Permitiriam que ela encontrasse uma família que a amasse e lhe desse esperança. Então, tiraram isso dela. Tudo de novo. Disseram que a única maneira de acabar com o ciclo de abuso é morrer ou não ter ninguém. Ela merecia algo melhor", criticou um usuário.
Do outro lado, adeptos da visão mais trágica defenderam a coerência do sacrifício. "A trajetória da Eleven a direcionava pra esse momento. Tudo bem achar que poderia ter sido de outra maneira, mas o arco dela faz completo sentido, mesmo que seja um final triste", contra-argumentou outro fã.
Pontas Soltas e a Sombra de um Spin-off
Para além da polêmica sobre o destino de Eleven, o final deixou várias questões em aberto. Personagens como a cientista Dr. Kay (Linda Hamilton), que comandava novos experimentos e se tornou uma perseguidora implacável, não tiveram um desfecho claro. Monstros icônicos da série, como o Demogorgon, ficaram de fora do episódio final.
Além disso, muitas motivações de vilões como Vecna e o Devorador de Mentes, assim como detalhes do passado, ficaram sem explicação detalhada, sendo deixadas para a dedução do público. Até a libertação mágica do grupo de Hawkins pelos militares careceu de uma elaboração mais satisfatória.
Os irmãos Duffer já sinalizaram que parte dessas lacunas pode ser explorada em um spin-off da franquia. No entanto, a crítica aponta que a história principal deveria se sustentar por si só, sem depender de projetos futuros para amarrar seus pontos narrativos.
Embora o desfecho não tenha gerado uma reação negativa unânime como ocorreu com séries como Game of Thrones, e tenha apresentado momentos de ação e simbolismo aclamados – como a cena em que Joyce (Winona Ryder) mata o vilão –, o gosto amargo das pontas soltas e a sensação de indecisão sobre o destino da protagonista marcaram a despedida da série. O legado de Stranger Things fica, portanto, dividido entre o épico e o inconclusivo.