Arquivo Geral do Rio revela fotos históricas da transformação urbana entre 1937 e 1945
Fotos históricas mostram transformação do Rio entre 1937 e 1945

Arquivo Geral do Rio revela fotos históricas da transformação urbana entre 1937 e 1945

O Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro realizou uma recuperação extraordinária de fotografias históricas que capturam a profunda transformação urbana da então capital da República entre os anos de 1937 e 1945. As imagens, que estavam esquecidas no acervo, revelam cenas impressionantes de uma cidade em pleno processo de redesenho pelo progresso, mostrando desde a abertura da Avenida Brasil – quando a via ainda era cercada por matagal – até a expansão urbana em direção à Zona Norte, Zona Sul e subúrbios.

Um Rio em metamorfose: do matagal ao asfalto

Em uma época em que fotografar a cidade era algo raro e restrito quase sempre a fotógrafos oficiais, essas imagens documentam o despertar do Rio para a modernização. Segundo Elizeu Santiago, presidente do Arquivo Geral da Cidade, o material revela um Rio em profunda mudança, com a abertura da Avenida Brasil e a expansão da cidade para o subúrbio sendo momentos centrais dessa transformação.

As fotografias registram:

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  • O asfalto chegando às ruas da Tijuca;
  • A abertura de vias no Alto da Boa Vista;
  • A urbanização acelerada no Centro;
  • A região da Central do Brasil ainda cercada por áreas verdes;
  • O balneário de Ramos inaugurado pelo presidente Getúlio Vargas.

Há também registros preciosos de bondes eletrificados cruzando São Cristóvão – um retrato de um Rio em que a mobilidade era diferente e mais coletiva. Leonel Kaz, editor do livro Achados e Perdidos que reúne parte do acervo, lembra: "Todo mundo andava de bonde. Havia um congraçamento na cidade. As pessoas se conheciam nas ruas".

Estado Novo e a documentação das obras públicas

O período das fotos coincide com o Estado Novo de Getúlio Vargas e com uma fase intensa de obras públicas na capital federal. Segundo o historiador Pedro Gil, do Arquivo Geral da Cidade, as imagens documentam tanto demolições quanto modernizações.

"Essas fotos mostram as transformações, as demolições, mas também a modernização da cidade. São abertas vias, reformadas outras, Copacabana é modernizada. Mostram a cidade de forma ampla, da Zona Sul à Zona Norte", explica Gil.

Praticamente todas as fotografias foram feitas pelos filhos de Augusto Malta, um dos pioneiros da fotografia no Brasil. Assim como o pai, Aristogeton e Uriel Malta atuavam como fotógrafos oficiais da prefeitura durante a gestão de Henrique Dodsworth.

Segundo Conrado Werneck Pimentel, subgerente de Documentação Especial, os registros tinham função prática: "Esses registros eram feitos a mando da Prefeitura. Muitas fotos serviam como prova documental em caso de litígio com proprietários de imóveis que seriam demolidos".

Decisões urbanísticas e preservação da memória

O acervo também revela decisões urbanísticas que ainda geram debate contemporâneo, como a derrubada de árvores no Campo de Santana para a abertura da Avenida Presidente Vargas. Leonel Kaz destaca: "O Rio precisa cuidar não apenas dos seus prédios, mas das suas árvores, que fazem parte desse paraíso tropical".

Para o secretário municipal de Cultura, Lucas Padilha, preservar esse material é uma política pública do presente: "A foto é um documento que mostra o uso da cidade, o que se consumia à época, os produtos, os letreiros. Cuidar da memória é fundamental".

Do arquivo para o público: digitalização e livro

As 14 mil imagens que estavam esquecidas no acervo agora vêm sendo organizadas e digitalizadas. O material já está disponível no site do Arquivo Geral da Cidade e também dará origem a um livro impresso com 300 fotografias selecionadas.

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Estes documentos ajudam a entender como o Rio chegou até aqui – e levantam uma pergunta inevitável: o que ainda vai mudar na paisagem da cidade nas próximas décadas? Leonel Kaz resume: "A gente tem que construir a cidade não apenas com a voracidade e a ganância, mas com um jeito mais carioca de ser, mais solto, mais leve, mais vivido, mais sábio. A cidade deve ser construída com menos voracidade e mais sabedoria".

Alguns registros desafiam até os mais conhecedores da história da cidade, como nas fotos de abertura de ruas na Ilha do Governador e Pavuna e de um imenso lamaçal que um dia foi o Jardim Botânico – testemunhos silenciosos de um Rio que se transformava rapidamente sob as lentes dos Malta.