Belo Horizonte: Apenas 16,5% das ruas homenageiam mulheres, revela levantamento
BH: só 16,5% das ruas têm nomes femininos, mostra estudo

Desigualdade simbólica: mulheres são maioria em BH, mas minoria nos nomes das ruas

Um levantamento inédito realizado pelo programa especial Nome de Mulher, da TV Globo em Minas Gerais, expõe uma significativa disparidade na representatividade feminina na nomenclatura urbana de Belo Horizonte. Apesar de as mulheres constituírem 53,35% da população da capital mineira, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sua presença nos nomes de logradouros é drasticamente inferior.

A análise, baseada em bases de dados públicos, identificou que apenas cerca de 2 mil das 12.092 ruas da cidade fazem referência a figuras femininas, o que corresponde a apenas 16,53% do total. A situação é ainda mais crítica quando se observam os viadutos: dos 130 existentes, somente seis carregam nomes de mulheres.

Metodologia e ausência de dados oficiais

A Prefeitura de Belo Horizonte não dispõe de uma classificação oficial que quantifique quantas vias públicas homenageiam especificamente mulheres. Diante dessa lacuna informativa, a equipe do programa cruzou diversas bases públicas disponíveis e, para uma medição mais precisa da representatividade feminina, excluiu deliberadamente os nomes de santas da contagem.

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Para compreender quem são as mulheres que conseguiram romper essa barreira simbólica e ter seus nomes eternizados em ruas, praças, parques e bairros, a reportagem percorreu diferentes regiões da capital mineira. A investigação incluiu entrevistas com especialistas em urbanismo e gênero, moradoras dos locais e ativistas que lutam por maior equidade na memória urbana.

Exemplos de homenagens femininas na capital

A reportagem destacou vários locais que carregam nomes de mulheres notáveis:

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  • Avenida Clara Nunes — Localizada no Bairro Renascença, na Região Nordeste, homenageia a célebre cantora mineira que residiu na área antes de se consagrar como um dos maiores ícones da música popular brasileira.
  • Bairro Dandara — Esta comunidade, reconhecida oficialmente como bairro em 2023, leva o nome de Dandara dos Palmares, uma das principais lideranças da histórica República de Palmares. A área nasceu de uma ocupação iniciada em 2009, uma luta conduzida majoritariamente por mulheres.
  • Bairro Jaqueline — Seu nome presta homenagem à filha do primeiro proprietário das terras, com reconhecimento oficial estabelecido pelo Decreto 3.939, de março de 1981.
  • Conjunto Zilah Spósito — Situado no bairro Serra Verde, este conjunto habitacional foi criado a partir da mobilização de Zilah Spósito, uma mulher que dedicou sua vida às causas sociais. Ela auxiliou famílias ameaçadas de remoção a conquistarem o direito à moradia. Segundo a Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (URBEL), o conjunto possui mais de 790 domicílios e é classificado como bairro popular.
  • Parque Ecológico Maria do Socorro Moreira — Localizado no bairro Padre Eustáquio, este parque foi criado no antigo terreno do Aeroporto Carlos Prates, desativado em abril de 2023. O nome homenageia a líder comunitária Maria do Socorro Moreira, cuja atuação incansável em defesa do direito ao lazer e à convivência comunitária foi fundamental para a transformação da área.
  • Ruas dentro da Avenida do Contorno — Na região que corresponde à Belo Horizonte original, apenas duas ruas recebem nomes de mulheres: Bárbara Heliodora e Marília de Dirceu, evidenciando a histórica sub-representação no núcleo mais antigo da cidade.
  • Viaduto Helena Greco — Este viaduto marca a trajetória de Helena Greco, primeira vereadora eleita em Belo Horizonte após a redemocratização, em 1982. Iniciando sua vida política aos 61 anos, ela foi uma militante histórica que enfrentou a ditadura militar e pautou em sua atuação o combate às desigualdades de gênero, à violência e ao preconceito, tornando-se uma referência na defesa dos direitos humanos na cidade.

Um retrato da memória urbana

Este levantamento não apenas quantifica uma desigualdade, mas também resgata as histórias de resistência, arte, luta social e liderança política por trás dos poucos nomes femininos que pontuam o mapa de Belo Horizonte. As mulheres homenageadas, de Clara Nunes a Helena Greco, representam conquistas em diversos campos, mas sua presença limitada nos logradouros reflete um desequilíbrio histórico na forma como a cidade constrói e preserva sua memória coletiva.

A discussão levantada pelo especial vai além dos números, provocando uma reflexão sobre inclusão, representatividade e quais narrativas são valorizadas e eternizadas no espaço público de uma das maiores capitais do Brasil.