Cachorro-do-mato é flagrado usando insetos como 'remédio' em comportamento inédito no interior paulista
Um comportamento curioso e até então nunca registrado desta forma chamou a atenção de pesquisadores no interior de São Paulo. Um cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) foi flagrado esfregando o corpo em um grilo e lambendo uma barata, sem ingerir os insetos. A cena, registrada em Franca (SP), pode indicar um caso de automedicação animal, fenômeno conhecido como zoofarmacognosia.
Comportamento específico e não alimentar
"Não era um contato aleatório", explica o biólogo Alex Luiz de Andrade Melo, orientador do estudo publicado na revista Research, Society and Development. "O animal manipulava o inseto de forma específica, esfregando ou lambendo, e sem consumi-lo, o que foge completamente de um comportamento alimentar".
Os registros mostram dois episódios claros em que o animal solta o inseto ainda vivo após dois ou três minutos de manipulação. Ele esfrega o corpo contra um grilo e, em outro momento, lambe repetidamente uma barata, chegando a manipulá-la com a boca.
Ineditismo do estudo em três aspectos
O ineditismo da pesquisa baseia-se em três aspectos fundamentais:
- Espécie: Embora o cachorro-do-mato seja bem estudado, essa interação específica com função terapêutica ainda não havia sido documentada para a espécie.
- Tipo de comportamento: A manipulação sem ingestão sugere aplicação tópica, possivelmente para controle de ectoparasitas ou irritações cutâneas.
- Contexto periurbano: O monitoramento foi realizado em área de transição entre cidade e Cerrado, facilitando o registro de eventos raros.
Hipótese sustentada pela ciência
A hipótese de automedicação é sustentada pela ciência, já que insetos como baratas e grilos possuem compostos químicos com potencial antimicrobiano, antifúngico ou repelente. "O contato sem ingestão sugere que o objetivo pode ser aplicação tópica, possivelmente para controle de ectoparasitas ou irritações cutâneas", detalha Melo.
O monitoramento foi realizado de forma não invasiva, com uso de câmeras automáticas em uma área de transição entre a cidade e o Cerrado. Para os pesquisadores, o ambiente periurbano facilita o registro de eventos raros devido à proximidade com o monitoramento constante.
Descoberta começou de forma inesperada
A descoberta começou de forma inesperada, a partir de imagens feitas pelo fotógrafo Miguel Veronez. "Percebemos que o animal não estava se alimentando. Mesmo sendo uma espécie que consome insetos, naquele caso ele apenas interagia com eles, sem ingestão", conta a estudante de medicina veterinária Giovana Rodrigues Cintra, autora do artigo.
Para Giovana, o estudo reforça que o comportamento dos animais silvestres pode ser muito mais complexo do que o descrito na literatura científica. "Quando esse padrão se repetiu em mais de um registro, ficou claro que não se tratava de um comportamento alimentar".
Laboratório a céu aberto
O estudo foi realizado em uma área de transição entre cidade e vegetação nativa, o chamado ambiente periurbano, em uma região de contato com fragmentos de Cerrado, rica em biodiversidade. Para Alex, esses locais funcionam como uma espécie de laboratório ecológico.
"A presença de câmeras e a proximidade com pesquisadores faz com que eventos raros sejam mais facilmente documentados", explica. "É possível que esse comportamento já ocorra em ambientes naturais, mas passe despercebido".
Próximos passos da investigação
O próximo passo da investigação envolve análises químicas para comprovar a função medicinal dos compostos presentes nos insetos manipulados pelo cachorro-do-mato. A experiência também deixou um aprendizado importante para os pesquisadores.
"Pequenos detalhes fazem muita diferença, principalmente quando a gente está tentando entender o comportamento de um animal em ambiente natural", afirma Giovana. O estudo reforça como o comportamento animal ainda guarda complexidades pouco exploradas pela ciência.
O cachorro-do-mato é amplamente distribuído na América do Sul, desde o norte da Colômbia até o norte da Argentina, excluindo a bacia Amazônica. A descoberta em Franca abre novas perspectivas para compreensão dos mecanismos de automedicação na fauna silvestre brasileira.



