Acupuntura e terapias avançadas dão nova chance a tartarugas marinhas feridas no litoral capixaba
As tartarugas marinhas resgatadas no litoral do Espírito Santo estão contando com um aliado surpreendente em sua luta pela sobrevivência: a acupuntura. Esta técnica milenar da medicina tradicional chinesa está sendo aplicada para acelerar a recuperação de animais debilitados que foram atropelados por embarcações, além de aliviar dores causadas por traumas graves. O tratamento complementar vem ganhando força diante de uma estatística alarmante registrada recentemente.
Recorde trágico na Baía das Tartarugas
O verão de 2026 bateu todos os recordes na quantidade de animais atropelados por embarcações na Baía de Vitória, uma área de proteção ambiental conhecida como Baía das Tartarugas. Somente em janeiro deste ano, 14 animais morreram após colisões com barcos. No total, até março de 2026, 16 tartarugas foram atingidas e nenhuma sobreviveu aos ferimentos iniciais. Desde 2024, quando o Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (Ipram) começou a monitorar sistematicamente esses casos, já foram contabilizados 57 atropelamentos no estado.
Para os animais que conseguem chegar vivos ao centro de tratamento em Vila Velha, na Grande Vitória, cada agulha de acupuntura representa uma chance adicional de retorno ao mar. A veterinária Isabela Hatakeyama explica que o foco principal é reduzir o sofrimento dos animais e estimular o organismo a se fortalecer, regenerando as feridas mais rapidamente. "Principalmente na questão de dor, e aí alguns outros pontos podem fazer também uma estimulação e ajudar essa tartaruga que foi atropelada a se recuperar com mais rapidez", afirmou a especialista.
Tratamento multimodal: acupuntura, laser e fisioterapia
Além da acupuntura, os profissionais do centro de reabilitação utilizam uma combinação de terapias avançadas:
- Terapia a laser: os animais são submetidos a uma luz azulada que auxilia na cicatrização de feridas e na recuperação tecidual
- Fisioterapia especializada: exercícios para fortalecer músculos que permitirão às tartarugas nadar novamente sozinhas
- Acompanhamento radiográfico: raios-X para avaliar a profundidade das lesões e monitorar a evolução do tratamento
O tratamento é silencioso e delicado, mas pode ser decisivo para que o animal volte a se alimentar e recupere os movimentos fundamentais no processo de soltura. Segundo os especialistas, essa recuperação completa é essencial para que as tartarugas possam sobreviver ao retornar ao seu habitat natural.
Marcas de violência: hélices deixam padrões identificáveis
As imagens dos animais resgatados este ano revelam a brutalidade dos impactos no mar. Cortes repetitivos e profundos nas carapaças e crânios mostram um padrão característico que diferencia claramente os ataques naturais da intervenção humana. O coordenador veterinário do Ipram, Leandro Egert, detalha: "O animal, quando ele é predado, ele vai ser mordido por um peixe muito grande, por um tubarão em vários locais. A hélice não. Ela tem uma repetição que a gente consegue ver e falar: 'Ó, isso aqui foi interação com humano, foi hélice'".
Vulnerabilidade em área de concentração histórica
Luis Felipe Mayorga, diretor do Ipram, ressalta que a Baía de Vitória possui uma das maiores concentrações de tartarugas-verdes da América Latina, mas a carapaça do animal é frágil quando confrontada com a velocidade dos motores das embarcações. "É um animal que foi desenvolvido para resistir à mordida de tubarão, para resistir a traumas naturais. Só que ele não está preparado para isso, que é uma embarcação com mais de toneladas. Mesmo pequenas embarcações são pesadas quando em alta velocidade", explicou o diretor.
A gravidade do impacto depende crucialmente do local atingido. Lesões na porção dianteira da carapaça apresentam risco de óbito quase imediato por atingirem o pulmão. Já ferimentos na cabeça, embora severos, permitem uma sobrevida maior, pois o cérebro é protegido por ossos e tecidos não vitais que podem amortecer o trauma.
Fiscalização e esperança na recuperação
A Capitania dos Portos informou que abordou 3.829 embarcações durante a Operação Navegue Seguro no Espírito Santo, com três notificações por excesso de velocidade na região da Grande Vitória. Para a equipe do Ipram, que lida diariamente com a fragilidade desses animais, cada sucesso no tratamento representa uma vitória emocionante.
Leandro Egert compartilha essa satisfação: "A gente vê esses animais que levaram uma pancada na cabeça, ele conseguir fechar aquela ferida, ele voltar a se alimentar. É um degrauzinho que ele vai pisando ali para chegar à soltura. Então, cada degrauzinho ali é uma vitória para a equipe inteira, né? Então, a gente fica muito emocionado, muito feliz".
Enquanto as tartarugas continuam sua luta pela sobrevivência com ajuda de técnicas inovadoras, a conscientização sobre a navegação responsável em áreas de proteção ambiental se mostra cada vez mais urgente para preservar essas espécies marinhas tão vulneráveis.



