Justiça aceita denúncia contra policiais por morte de jovem em abordagem em Campo Grande
A Justiça de Mato Grosso do Sul aceitou a denúncia do Ministério Público contra os policiais militares José Laurentino dos Santos e Vinicius Araújo Soares. Eles são acusados de homicídio qualificado pelo assassinato de Rafael da Silva Costa, de 35 anos, ocorrido durante uma abordagem policial no bairro Vida Nova, em Campo Grande, em novembro do ano passado.
Versões conflitantes sobre a abordagem fatal
De acordo com o boletim de ocorrência registrado pelos policiais, Rafael chegou a um supermercado do bairro em aparente surto psicótico. Ao ser abordado do lado de fora do estabelecimento, ele teria ficado agressivo e desacatado os agentes. No entanto, a família do jovem contesta veementemente essa narrativa oficial.
O advogado Walisson dos Reis, que representa os familiares de Rafael, afirma que imagens de câmeras de segurança mostram uma sequência de eventos diferente:
- Os policiais se aproximam de Rafael e iniciam uma conversa
- Utilizam uma arma de choque contra o jovem
- Aplicam spray de pimenta mesmo com Rafael já caído no chão
- Algemam o jovem e o colocam na viatura policial
- Rafael entra em convulsão dentro do veículo
Segundo o relato dos agentes, eles realizaram os primeiros socorros antes de transportar Rafael a uma unidade de saúde. Durante o trajeto, no entanto, o jovem parou de respirar e, apesar das manobras de reanimação, faleceu antes de chegar ao atendimento médico.
Família contesta laudo e relata histórico do jovem
A irmã de Rafael, Taiane da Silva Costa, revelou que o jovem já havia passado por crises semelhantes relacionadas a possível uso de substâncias psicoativas, mas nunca havia apresentado comportamento violento durante esses episódios. A família também questiona o laudo oficial que aponta acidente vascular cerebral (AVC) como causa da morte, alegando que o óbito foi resultado de traumatismo craniano decorrente da abordagem policial.
"Ele costumava pedir ajuda durante os surtos, inclusive solicitando a presença da polícia antes dessa abordagem fatal", relatou Tiago da Silva Costa, irmão de Rafael. O jovem não possuía laudo médico formal, mas havia registros de atendimento no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) de Campo Grande.
Andamento processual e medidas disciplinares
O Ministério Público acusa os policiais de homicídio qualificado, afirmando que eles dificultaram a defesa de Rafael antes de sua morte. José Laurentino permanece preso preventivamente e também foi denunciado por falsidade ideológica, por supostamente inserir informações falsas no boletim de ocorrência. Vinicius Araújo foi solto e está usando tornozeleira eletrônica enquanto aguarda julgamento.
A família havia procurado inicialmente a corregedoria da Polícia Militar para registrar o caso como homicídio culposo, mas o advogado Walisson dos Reis afirma que a ação dos policiais foi violenta e completamente desproporcional à situação.
A Polícia Militar do Mato Grosso do Sul emitiu nota oficial informando que:
- Não recebeu registro formal da denúncia pelos meios oficiais
- Instaurou procedimentos administrativos internos sobre o caso
- Afastou os policiais envolvidos por determinação judicial
- Poderá aplicar outras medidas disciplinares conforme o andamento processual
A corporação reafirmou em comunicado seu "compromisso inabalável com a ética, o respeito e a integrida" e destacou que "não tolera qualquer tipo de comportamento que viole seus princípios e valores".
Detalhes do caso que chocou Campo Grande
Rafael da Silva Costa morreu na noite de 21 de novembro do ano passado, após ser atingido por spray de pimenta e receber duas descargas de arma de choque durante a abordagem policial. Ele foi levado para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mas chegou sem sinais vitais.
As imagens das câmeras de segurança mostram Rafael descalço e sem camisa na calçada quando os policiais se aproximam. A família afirma que ele já estava inconsciente no momento em que foi colocado na viatura, contradizendo a versão apresentada pelos agentes.
Este caso reacende o debate sobre protocolos de abordagem a pessoas em crise e a necessidade de capacitação específica para situações envolvendo saúde mental, especialmente considerando que Rafael já tinha histórico de atendimento em serviços especializados.