Uma mulher de 28 anos foi brutalmente agredida pelo ex-namorado dentro do carro e em um posto de gasolina na Freguesia do Ô, Zona Norte de São Paulo, na madrugada de domingo (3). Julia Andrade Abreu sofreu chutes, socos e golpes com um pedaço de madeira, em um ataque que durou cerca de 12 minutos. Câmeras de segurança registraram parte da agressão.
Relacionamento abusivo
Julia e Thiago Lucas de Vasconcelos, de 31 anos, mantiveram um relacionamento de um ano e dois meses, mas estão separados há aproximadamente um ano. Segundo a vítima, a relação era marcada por agressões verbais, violência psicológica e comportamento controlador. “Ele me chamava de ‘puta’, ‘vagabunda’, ‘lixo’, dizia que ninguém nunca ia me querer”, relatou Julia ao g1. A defesa de Thiago não foi localizada para comentar o caso.
Mesmo após o término, os dois ainda mantinham contato. Julia ajudava a cuidar da filha dele, de 7 anos, por quem tem grande carinho. A vítima também é mãe de duas crianças, de 5 e 11 anos. Ocasionalmente, Thiago emprestava o carro a ela, o que ocorreu no dia do crime.
O dia da agressão
Doente e com dor de ouvido, Julia usou o veículo para ir ao hospital. Em troca, combinou de deixá-lo no Jardim Guarani, onde fica uma torcida organizada do Corinthians. Após o atendimento médico, ela deu carona à sobrinha e voltou para buscar Thiago. De acordo com a vítima, ele estava alterado e alcoolizado. A ideia era parar em um posto de gasolina para comprar cigarros e depois voltar para casa.
No trajeto, Thiago começou a “surtar” e a xingá-la. Enquanto Julia fazia um retorno na Avenida Tomás Rabêlo e Silva, próximo ao posto, ele desligou o carro, mesmo no banco do passageiro, e iniciou as agressões. “Ele já monta em cima de mim, e as agressões começam. Eu tento abrir a porta do carro para sair e ele bate a porta. Foram de 10 a 12 minutos de socos, tapas, mordidas, me enforcando”, contou Julia.
Durante o ataque, o banco do motorista quebrou e ficou reclinado. Julia conseguiu abrir a porta traseira e tentou fugir, mas foi puxada de volta pelos cabelos. “Na hora que eu caio, ele me puxa de volta pelo cabelo e tenta ligar o carro. Eu acho que ele queria ligar o carro e ir me arrastando pelos cabelos com o carro andando. Só que ele não consegue ligar o carro, me solta, e eu levanto e corro para pista”, disse.
Ela tentou pedir ajuda a dois motoristas que passavam pela avenida, mas ninguém parou. Nesse momento, o agressor assumiu a direção do carro e tentou atropelá-la. Na tentativa de escapar, Julia correu até o posto de gasolina e entrou em uma área restrita aos funcionários. Mesmo assim, foi perseguida. “As agressões chegam a ser até pior do que no carro. Ali é onde ele joga pia industrial na minha cabeça. Ele joga o bebedouro de água, e eu caio no chão. São só sequências de murro. Ele me chuta muito, muito, muito lá dentro. Vem com um pedaço de madeira e começa a me bater”, relatou.
Segundo a vítima, o homem, dono de uma borracharia, ainda tentou enforcá-la com um fio, aparentemente de carregador de celular. Ela conseguiu se soltar e correu até os frentistas. Julia afirma que os funcionários só intervieram quando também foram ameaçados com um bloco de tijolo. Em seguida, ela se escondeu entre uma geladeira e a parede até a chegada da polícia. Em pânico, chegou a pegar uma pequena faca de serra para se defender. Quando a Polícia Militar chegou, o agressor já havia fugido com o carro.
Atendimento na delegacia
O caso foi registrado como violência doméstica, lesão corporal e ameaça na 4ª Delegacia De Defesa Da Mulher (DDM). Na delegacia, a vítima relatou que foi destratada pelos policiais, além de ter esperado cerca de nove horas pelo atendimento, mesmo ferida. Um escrivão teria questionado: “o que você está fazendo com um cara desses?”. Em outro momento, ao retornar à delegacia no dia seguinte, uma delegada teria dito: “já que você está com tanto medo, muda de cidade”. “Eles não têm compaixão, não têm empatia, não medem as palavras que falam”, criticou a vítima.
Após a série de agressões, a Justiça concedeu medida protetiva de urgência nesta quarta-feira (6). O agressor está proibido de se aproximar a menos de 300 metros da vítima e de seus familiares, de manter qualquer tipo de contato e de frequentar os mesmos locais que ela. Procurada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) não se manifestou até a última atualização da reportagem.
Histórico de violência
Antes da sequência de agressões registrada no domingo (3), o relacionamento entre Julia e Thiago já era atravessado por episódios de violência e controle. Segundo a vítima, o ex-namorado tinha comportamento possessivo, com crises frequentes de ciúmes, especialmente quando consumia álcool. “Quando bebia, ficava estúpido, arrogante. Qualquer coisa virava motivo de briga. Eu não podia nem olhar para os lados, porque, para ele, eu estava querendo outras pessoas”, relatou.
Julia afirma que era alvo constante de xingamentos. “Ele me chamava de ‘puta’, ‘vagabunda’, ‘lixo’, dizia que ninguém nunca ia me querer.” Além das ofensas, também houve agressões físicas durante o relacionamento. Em discussões, ela conta que chegou a ser puxada pelos cabelos e teve a cabeça pressionada contra a parede.
O controle se estendia à rotina. Segundo a vítima, ela só podia sair para trabalhar se estivesse acompanhada da filha dele, como forma de “comprovar” para onde iria. Até atividades cotidianas, como tomar banho, eram monitoradas. “Eu só podia tomar banho depois que ele chegasse em casa. Se tomasse antes, ele dizia que era porque eu ia sair escondida. Se eu não quisesse ter relação, ele dizia que era porque eu já tinha ficado com outra pessoa. Eu não podia passar perfume ou creme, porque, para ele, isso significava que eu ia encontrar alguém depois”, afirmou.
O término aconteceu após um episódio envolvendo o aniversário do filho mais novo de Julia. Ela planejava comemorar a data com o pai da criança e outros familiares, o que não foi aceito por Thiago. “Foi quando eu disse basta. Ele não aceitou que eu fosse comemorar o aniversário do meu filho com o pai dele, mesmo com outras crianças e pessoas junto”, finalizou.



