O caso do ovo de Páscoa envenenado com “chumbinho”, que matou os irmãos Luís Fernando, de 7 anos, e Evelyn Fernanda, de 13 anos, e deixou a mãe das crianças em estado grave, em Imperatriz, no sul do Maranhão, completou um ano nesta semana. O crime chamou atenção por ter sido planejado e, de acordo com a investigação, motivado por vingança e ciúmes.
Conforme apontou a investigação, Jordélia Pereira Barbosa, acusada do crime, comprou o ovo de Páscoa em um shopping e contratou um motoboy para fazer a entrega sem se identificar. O presente foi deixado na casa da família com um bilhete que dizia: “Com amor para Mirian Lira. Feliz Páscoa!!!”.
Cronologia do crime
Ameaças e preparação antes do crime
Segundo a investigação, em janeiro de 2025, Jordélia passou a enviar ameaças a Mirian Lira Rocha por meio de perfis falsos em redes sociais. Em uma das mensagens, escrevia: “Família que tem promessa ninguém se mete. E quando faz isso que você está fazendo, paga o preço”.
Dois dias antes do crime, em 14 de abril de 2025, Jordélia comprou uma passagem de ônibus de Santa Inês com destino a Imperatriz, onde morava a família.
16 de abril de 2025
Por volta de 00h30, Jordélia embarcou em um ônibus rumo a Imperatriz, em uma viagem de aproximadamente 384 km. Pela manhã, ao chegar à cidade, ela se hospedou em um hotel usando o nome falso “Gabrielle Barcelli”. Na ocasião, Jordélia se apresentou como uma mulher trans e alegou que a documentação oficial estaria em processo de regularização, o que teria evitado a apresentação de documentos de identidade no momento do check-in.
Durante a tarde, Jordélia foi até o supermercado onde Mirian Lira Rocha trabalhava como operadora de caixa. Fingindo ser uma representante comercial, ela tentou realizar uma degustação de trufas para os funcionários, mas a ação não foi autorizada pelo gerente do estabelecimento.
Por volta das 15h, câmeras de segurança registraram Jordélia em uma loja de chocolates em um shopping de Imperatriz. Nas imagens, ela aparece usando peruca preta e óculos escuros. Foi no local que a acusada adquiriu o ovo de Páscoa.
À noite, Jordélia contratou um serviço de motoboy para entregar o chocolate de forma anônima na casa da família. Após a entrega, Jordélia ligou para Mirian perguntando se ela havia recebido o chocolate. Questionada sobre sua identidade, respondeu apenas: “Você vai saber quem é”.
Por volta das 21h, a família consumiu o doce. Pouco tempo depois, o filho caçula, Luís Fernando, foi o primeiro a passar mal, relatando que estava “ficando cego” e com o corpo sem forças. Mirian saiu de casa em busca de ajuda na casa da mãe. Em seguida, chamou o pai da criança, seu ex-marido. A família então levou o menino para o Hospital Municipal de Imperatriz (HMI). Mirian acompanhava o atendimento do filho no hospital quando começou a apresentar os mesmos sintomas. Ela passou mal logo após Luís Fernando ser entubado e precisou ser levada por um maqueiro para a emergência da própria unidade de saúde.
Já a filha mais velha, Evelyn Fernanda, começou a passar mal em casa enquanto a mãe e o irmão já estavam internados. A família chegou a acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas, diante da demora, decidiu levá-la ao hospital em um carro particular. Às 23h50, imagens de câmeras de segurança registraram Jordélia deitada em um sofá na recepção do hotel onde estava hospedada, em Imperatriz.
17 de abril de 2025
Por volta das 2h30 da madrugada, Jordélia deixou Imperatriz em um ônibus com destino a Santa Inês. Às 4h, Luís Fernando morreu no hospital após tentativas de reanimação. A mãe e a irmã da criança foram entubadas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Pela tarde, Jordélia foi presa em flagrante pela Polícia Civil ao desembarcar do ônibus em Santa Inês. Com ela, os policiais apreenderam perucas usadas durante o crime, restos de chocolate armazenados em bolsas térmicas e chocolate granulado, que teria sido utilizado para disfarçar o sabor do veneno.
18 de abril de 2025
O corpo de Luís Fernando foi enterrado. Dezenas de pessoas, dentre familiares, estiveram presentes no cortejo que saiu da casa do menino até o Cemitério Municipal Bom Jesus. Enquanto ocorria o enterro, mãe e filha continuavam internadas em estado gravíssimo na UTI do Hospital Municipal de Imperatriz. Durante a audiência de custódia, a Justiça do Maranhão converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva. O juiz entendeu que havia indícios suficientes de autoria e materialidade para manter a suspeita presa durante o andamento das investigações. Com a decisão, foi determinada a transferência de Jordélia do presídio de Santa Inês para o sistema prisional de São Luís.
20 de abril de 2025
A mãe das crianças foi extubada. Ela apresentou melhora clínica e conseguiu voltar a se comunicar, embora ainda não movimentasse o corpo naquele momento. No mesmo dia, a suspeita Jordélia Pereira Barbosa foi transferida para a Unidade Prisional de Ressocialização Feminina (UPFEM), em São Luís. A filha mais velha, Evelyn, permanecia em estado gravíssimo na UTI. A adolescente teve piora clínica e neurológica significativa no mesmo dia.
21 de abril de 2025
Mirian apresentou melhora clínica e foi transferida da UTI para a enfermaria. Foi na enfermaria que ela recebeu a confirmação oficial da morte do filho caçula, ocorrida quatro dias antes. Ao ser informada da perda e do estado gravíssimo da filha, Mirian passou mal e precisou receber acompanhamento psicológico no hospital. Boletim médico divulgado naquela manhã informou que a filha mais velha apresentou piora clínica, neurológica e hemodinâmica significativa. A adolescente permanecia entubada e com pressão arterial baixa, mesmo com uso de medicação otimizada.
22 de abril de 2025
Após cinco dias internada, a adolescente Evelyn Fernanda, de 13 anos, não resistiu às complicações do envenenamento e morreu pela tarde. De acordo com relatório da equipe médica, a causa da morte foi choque vascular associado à falência múltipla de órgãos, decorrente da intoxicação por “chumbinho”. A morte de Evelyn ocorreu cinco dias após o falecimento do irmão.
23 de abril de 2025
O corpo de Evelyn Fernanda foi enterrado sob forte comoção entre familiares e amigos da adolescente. Ainda sob cuidados médicos, a mãe da adolescente recebeu alta temporária do hospital para acompanhar o velório e o enterro da filha.
30 de abril de 2025
O laudo do Instituto de Criminalística (Icrim) confirmou que o ovo de Páscoa ingerido pela família continha “chumbinho”, pesticida usado de forma clandestina no Brasil como raticida. A análise técnica identificou a presença de terbufós, substância altamente tóxica encontrada em alguns agrotóxicos. Segundo a Polícia Civil, o veneno foi localizado em três pontos: no ovo de chocolate entregue à família, nos corpos das duas crianças e no material apreendido com Jordélia no momento da prisão. Com base no resultado laboratorial, a polícia concluiu o inquérito e reforçou o indiciamento da esteticista por duplo homicídio qualificado e tentativa de homicídio por envenenamento. Na mesma data, foi informado que a mãe das vítimas, Mirian Lira Rocha, já havia recebido alta hospitalar, enquanto a acusada permanecia presa à disposição da Justiça.
Desdobramentos judiciais
Em julho do ano passado, a Justiça negou o pedido da defesa para realização de exame de sanidade mental em Jordélia. Segundo o juiz, não havia indícios de que Jordélia Pereira fosse incapaz de responder pelos próprios atos. Na ocasião, Jordélia voltou a admitir que comprou o ovo de chocolate e o enviou a Mirian Lira, uma das vítimas, mas negou ter envenenado o doce e atribuiu a responsabilidade a terceiros. A versão foi considerada infundada pela Justiça do Maranhão.
Em setembro, a Justiça decidiu que Jordélia seria levada a julgamento pelo Tribunal do Júri, em Imperatriz, por duplo homicídio qualificado e tentativa de homicídio. O julgamento, porém, ainda não aconteceu porque a defesa recorreu da decisão. Ao g1, a Corregedoria Geral de Justiça do Maranhão informou que o processo está em análise no Tribunal de Justiça. Na prática, a defesa tenta reverter a decisão que levou a acusada a júri. Entre os pedidos, estão a anulação da decisão, a retirada do caso do júri ou a mudança da classificação do crime.



