Segunda prisão de dono do Banco Master revela rede de influência e ameaças
A segunda detenção de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e os detalhes que emergiram sobre sua extensa rede de contatos com políticos e magistrados, além de um aparato para intimidar opositores, ganharam repercussão internacional. O jornal britânico Financial Times destacou que a prisão marca "uma escalada significativa na investigação de suspeita de fraude e lavagem de dinheiro" no banco, que faliu no ano passado com prejuízos estimados em mais de R$ 40 bilhões, configurando a maior falência bancária do Brasil em uma geração.
Detenções e transferência para prisão de segurança máxima
Vorcaro havia sido inicialmente detido em novembro do ano passado no aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos, sendo liberado após alguns dias quando sua prisão preventiva foi substituída por monitoramento com tornozeleira eletrônica. Na última quarta-feira, ele foi preso novamente, conduzido a um centro de detenção provisória em Guarulhos e, posteriormente, encaminhado à penitenciária de Potim, no interior paulista, como parte da terceira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal.
Na quinta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça autorizou sua transferência para uma penitenciária federal de segurança máxima em Brasília, efetivada nesta sexta-feira. A plataforma de notícias financeiras Bloomberg ressaltou que "a segunda prisão do CEO do banco adiciona um toque de violência ao escândalo no Brasil", referindo-se às suspeitas de que o banqueiro mantinha uma espécie de "milícia pessoal" para monitorar e ameaçar adversários, ex-funcionários e jornalistas.
Revelações sobre ameaças e contatos de alto escalão
A investigação avançou além dos crimes de colarinho branco, conforme a Bloomberg, incluindo um comentário de Vorcaro em um grupo de WhatsApp sobre o desejo de "quebrar todos os dentes" do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, episódio também destacado pela cobertura da Associated Press. A mensagem, dirigida a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de "Sicário" nos documentos da PF, que lideraria o grupo operacional apelidado de "a turma", resultou em tentativa de suicídio de Mourão após sua prisão.
As mensagens vazadas do celular de Vorcaro, extraídas da quebra do sigilo telefônico e encaminhadas pelo STF à CPMI do INSS, revelaram menções a figuras proeminentes de Brasília, como o senador Ciro Nogueira, descrito como "um dos meus grandes amigos de vida", além de encontros com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e com o ministro do STF Alexandre de Moraes. A Bloomberg observa que "as mensagens recém divulgadas dão uma noção mais clara do grau de familiaridade que ele mantinha com figuras do alto escalão".
Suborno no Banco Central e impacto institucional
A decisão do ministro André Mendonça que autorizou as prisões na nova fase da operação trouxe à tona indícios de como Vorcaro supostamente exerceu influência no Banco Central. Investigadores alegam que ele pagou ao ex-diretor Paulo Sérgio Neves de Souza e a Belline Santana, chefe da área de supervisão bancária, para assessorá-lo em questões regulatórias. A Reuters destacou que essa revelação "causou grande comoção em Brasília, ameaçando empurrar a instituição ainda mais fundo em um escândalo que só cresce".
Souza e Santana, alvos da operação, foram afastados de seus cargos e submetidos a monitoramento eletrônico. A Reuters acrescenta que "as revelações ampliam o raio de impacto da explosão em torno de Vorcaro, cuja queda expôs uma rede de influência e conflitos de interesse que abalam a confiança em algumas das instituições mais poderosas do Brasil", citando intervenções incomuns do TCU e do STF na liquidação do banco.
A iniciativa do BC de liquidar o Banco Master foi vista como um ato de pragmatismo, mas essa impressão "foi abalada na quarta-feira pela Polícia Federal, que alegou que Vorcaro provavelmente subornou" os servidores. O BC, em declaração pública, afirmou que a investigação é fundamental para esclarecer os fatos e que violações serão sancionadas conforme a lei. As defesas de Vorcaro e de seu cunhado, Fabiano Zettel, questionaram as acusações, enquanto tentativas de contato com a defesa dos servidores do BC não obtiveram resposta.



