Investigação da PF revela ligação entre facção criminosa e administração pública de Cabedelo
A Polícia Federal conduz uma investigação de grande complexidade que expõe supostos vínculos entre a facção criminosa Comando Vermelho e a administração municipal de Cabedelo, na Grande João Pessoa. O chefe da organização na Paraíba, Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka, está diretamente ligado ao esquema que levou ao afastamento do prefeito Edvaldo Neto na última terça-feira.
Estrutura do esquema criminoso
De acordo com documentos judiciais, o modelo operacional envolvia o uso de empresas terceirizadas para contratação de pessoas indicadas pela facção. A investigação aponta que a então secretária de Administração, Josenilda Batista dos Santos, atuava como braço operacional interno, recebendo indicações criminosas e fraudando licitações.
O ex-prefeito Vitor Hugo é apontado como articulador inicial do esquema, responsável por firmar o pacto com a organização criminosa e estruturar o modelo que teria desviado mais de R$ 200 milhões dos cofres públicos.
Perfil do líder criminoso
Fatoka possui extenso histórico criminal, com prisão inicial em 2012 por comando de facção, promoção de rebeliões e homicídios violentos. Após fuga em massa da penitenciária PB1 em 2018, foi recapturado em Alagoas, mas conseguiu liberdade com tornozeleira eletrônica que posteriormente rompeu, fugindo para o Rio de Janeiro.
Além dos crimes de assassinato e tráfico, o criminoso é investigado por aliciamento violento de eleitores durante as Eleições de 2024 em Cabedelo, reforçando sua influência sobre o poder público municipal.
Mecanismos de atuação da facção
Segundo depoimentos colhidos pela Polícia Federal, incluindo o de integrante identificada como Ariadna Thalia, Fatoka exerceria comando direto sobre atividades na Paraíba mesmo foragido no Rio de Janeiro. Suas ordens abrangiam desde controle territorial armado até influência direta na administração pública.
O documento judicial revela que indicações para cargos na prefeitura eram identificadas internamente com a sigla "FTK", referência direta ao líder criminoso. Após contratações via empresas terceirizadas, recursos públicos retornavam ao núcleo político e faccional através de propinas, "folhas paralelas" e saques em espécie.
Participação familiar no esquema
Um dos aspectos mais reveladores da investigação é a identificação da sogra do prefeito afastado, Cynthia Cordeiro, como advogada de Fatoka no documento de autorização judicial. Ela ocupava secretaria na administração municipal e atuava como advogada da empresa Lemon, uma das terceirizadas envolvidas no esquema.
Pessoas diretamente ligadas ao criminoso, consideradas "de confiança", teriam ocupado funções estratégicas na prefeitura, atuando como intermediárias entre a facção e o poder público.
Modus operandi das contratações
A investigação detalha que a Prefeitura de Cabedelo realizava contratações de serviços terceirizados, como limpeza, através de licitações suspeitas de fraude. Empresas concorrentes eram deliberadamente desclassificadas mesmo com propostas melhores, mediante decisões administrativas e pareceres jurídicos que davam aparência de legalidade.
Uma vez fechados os contratos, as empresas funcionavam como mecanismo para contratação de pessoas indicadas pela "Tropa do Amigão", braço do Comando Vermelho na Paraíba.
Defesas dos investigados
A defesa de Edvaldo Neto afirmou em nota que o prefeito "jamais manteve qualquer vínculo ou relação com facção criminosa", classificando as acusações como "absolutamente inverídicas". Em vídeo publicado nas redes sociais, o político reforçou que não faz parte de esquemas e não cometeu atos ilícitos.
O ex-prefeito Vitor Hugo declarou não conhecer Ariadna Thalia, afirmando ser vítima de "perseguição política". Rougger Guerra, secretário da Prefeitura de João Pessoa, disse ter sido surpreendido pela operação e negou qualquer envolvimento.
Cynthia Cordeiro não respondeu aos contatos, mas em nota afirmou atuar com "absoluta retidão e lisura". A empresa Lemon também emitiu comunicado afirmando pautar suas atividades na ética e no respeito às normas, colocando-se à disposição para colaborar com as investigações.
A operação policial mirou além do prefeito afastado outras 12 pessoas, incluindo familiares e colaboradores da gestão municipal, em investigação que continua em andamento sob supervisão do Tribunal de Justiça da Paraíba.



