Operação da Polícia Federal mira esquema de descontos ilegais no INSS com prisões e apreensões
A Polícia Federal deflagrou uma nova fase da operação que investiga descontos ilegais em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social. A ação teve como um dos principais alvos a deputada federal Gorete Pereira, do MDB do Ceará, suspeita de atuar como articuladora política de uma organização criminosa no estado.
Mandados cumpridos e valores apreendidos
Durante a operação, foram realizadas duas prisões e cumpridos 19 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e no Ceará. Os agentes federais apreenderam mais de R$ 237 mil em espécie, além de veículos, bolsas de luxo e joias de alto valor.
Esta fase das investigações é um desdobramento das apurações sobre fraudes no INSS que vêm sendo conduzidas desde 2025 pela Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União. O esquema criminoso envolve descontos ilegais em benefícios de milhões de segurados, com ocorrências desde 2019 e prejuízos que podem ultrapassar R$ 6 bilhões.
Papel da deputada no esquema criminoso
Na nova etapa das investigações, a PF descobriu que o modus operandi foi reproduzido por quatro associações no Ceará. A deputada Gorete Pereira foi identificada como integrante relevante do grupo criminoso, com atuação tanto na articulação política quanto na operacionalização das associações fraudulentas.
Segundo as investigações, a parlamentar atuava para firmar acordos com o INSS que permitiam os descontos ilegais, influenciava servidores públicos para acelerar procedimentos, mantinha comunicação direta com agentes públicos, intermediava pagamentos e realizava repasses financeiros indevidos com movimentações suspeitas.
Decisão judicial e monitoramento eletrônico
A Polícia Federal chegou a pedir a prisão da deputada, mas o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou que ela seja monitorada por tornozeleira eletrônica. Na decisão, o magistrado destacou que a polícia encontrou comprovantes de transferência de valores expressivos para a conta da parlamentar, originários de uma empresa de fachada ligada ao esquema.
Entre as evidências estão documentos de compra e venda de um imóvel avaliado em mais de R$ 4 milhões, com parcelas pagas tanto por Gorete Pereira quanto pela empresa envolvida no crime.
Outros investigados e conversas reveladoras
A advogada Cecília Rodrigues Mota foi presa durante a operação, sendo acusada de ser uma das articuladoras centrais da organização criminosa. Em conversas interceptadas, ela demonstrou interesse em adquirir um jatinho, incentivando outros integrantes do esquema: "Deixa de fazer corpo mole. Vai atrás desse negócio, bora comprar um jatinho. O Natjo já vai comprar um jato. Vambora entrar na fila?"
Natjo de Lima Pinheiro, empresário apontado pela PF como chefe e administrador financeiro da organização, também foi preso. Em diálogo com a deputada, ele explicou por que o grupo utilizava o escritório de advocacia de Cecília para repassar o dinheiro desviado: "Deputada, é porque a Cecília é escritório de advocacia. Escritório de advocacia, eu acho mais legítimo, tem mais... Não é, no palavreado, mas tem moral para mandar o dinheiro, entendeu? Do que mandar da associação para a senhora. Não é melhor? O escritório de advocacia está passando para a senhora, então eu estou preservando as coisas".
A resposta da deputada foi breve: "Então, meu filho, você é que sabe".
Próximos passos das investigações
As investigações agora buscam desvendar possíveis elos entre os descontos indevidos praticados no Ceará e a cúpula de funcionários públicos que atuavam no INSS quando as fraudes ocorreram. Há elementos nas apurações que indicam pagamentos ao ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, que está preso desde 2025.
No período entre abril de 2024 e janeiro de 2025, os investigados teriam repassado aproximadamente R$ 4 milhões ao então presidente do instituto.
Defesas dos investigados
A deputada Gorete Pereira afirmou que não praticou qualquer ato ilícito e que as informações divulgadas não refletem a realidade dos fatos. A defesa de Natjo Pinheiro anunciou que vai pedir a revogação da prisão preventiva do empresário.
O Jornal Nacional não conseguiu estabelecer contato com a advogada Cecília Rodrigues Mota nem obteve retorno do ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto.



