Documentos da CPI revelam luxo e conexões políticas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro
Luxo e conexões políticas de ex-banqueiro em documentos da CPI

Documentos da CPI do INSS revelam rotina de luxo e conexões políticas de ex-banqueiro

Documentos obtidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS expõem uma rotina marcada por luxo extravagante e deslumbre do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Preso na quarta-feira (4) pela Polícia Federal sob suspeita de comandar um esquema de fraude e ameaças, Vorcaro se aproximou de autoridades da cúpula dos três Poderes e adotou uma postura agressiva contra adversários.

Encontros com autoridades e estilo de vida milionário

Há cerca de dois anos antes da prisão, Vorcaro se gabava de discursar entre ministros e outras autoridades em um evento em Londres. Em conversas com a então namorada Martha Graeff, em abril de 2024, ele afirmou: "Eu sou muito louco. Essa realidade. Todos ministros do Brasil. Do STF. STJ. Etc. E euzinho discursando". Os diálogos citam ao menos 11 encontros com "ministros", sem especificar nomes, incluindo um "inner circle com 10 pessoas apenas na casa de um ministro" em fevereiro do ano passado, quando o Banco Master já enfrentava uma crise irreversível.

Vorcaro também relatou que um ministro saiu de sua casa às 2h da madrugada em uma ocasião, e descreveu um jantar em Nova York, no Rockefeller Center, com "ministros e governadores". As conversas ainda abordam compras de carros de luxo e imóveis, como uma casa em Miami que, segundo ele, seria melhor que as dos jogadores David Beckham e Neymar. O ex-banqueiro afirmou ter recusado uma proposta de "100 milhões de dólares" por um barco personalizado com o nome da namorada.

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Conexões políticas e encontros com figuras influentes

Nos documentos, Vorcaro narra encontros com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e diz que o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), é um "grande amigo de vida". Ele também mencionou um encontro com o governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), na noite de 29 de agosto do ano passado, durante negociações do BRB para comprar o Banco Master. Além disso, afirmou ter ido à residência oficial de Davi Alcolumbre (União-AP) sem convite e ao Palácio do Planalto para uma reunião com o presidente Lula, três ministros e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Em abril de 2025, após Vorcaro mencionar "Alexandre Moraes", Martha perguntou se o ministro "gostou da casa". Ele respondeu: "Sim. Falou que é bem melhor. E ele adorava o apartamento". Em dezembro do ano anterior, o empresário havia dito que o presidente do Banco Central "já falou da nossa casa", sem esclarecer se se referia a Campos Neto ou Gabriel Galípolo.

Gastos exorbitantes e encontros com celebridades

Os documentos da CPI expõem gastos milionários com viagens e festas de luxo. Apenas o cachê do DJ Alok para a festa de 15 anos de sua filha, que viralizou nas redes sociais em 2023, teria custado US$ 365,85 mil (mais de R$ 1,7 milhão na cotação da época), segundo um email de Vorcaro. O ex-banqueiro ainda relatou encontros com personalidades da mídia, como Luciano Huck, Roberto Justus e Fábio Faria, e, em julho de 2024, disse ter se encontrado com o príncipe herdeiro saudita, Mohammad bin Salman, comentando: "Não esperava gente boa assim".

Disputas e ameaças no setor bancário

Os relatos alternam com momentos em que Vorcaro se dizia alvo de uma conspiração para impedir o sucesso do Banco Master. Em abril de 2024, ele afirmou a Martha que "esse negócio de banco" é "igual máfia" e que "ninguém" saía "bem". Meses depois, em julho, disse estar no meio de uma "guerra política" e que adversários queriam um "banho de sangue". O empresário estava sob pressão após um parecer contrário barrar a Caixa Asset de comprar R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master. Em agosto, afirmou que havia uma "conspiração já atestada" contra ele, mas que estava "contornando" o caso.

Nesse período, agentes do setor bancário já desconfiavam da viabilidade do Master após uma expansão acelerada baseada na emissão de CDBs com remunerações acima do mercado. Vorcaro também narrou uma disputa com André Esteves, dono do BTG Pactual.

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Milícia privada e planos de intimidação

No relatório que embasou a prisão, a Polícia Federal descreve outro perfil de Vorcaro. Segundo investigadores, ele mantinha uma milícia privada chamada "A Turma", com a participação de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, descrito como Sicário. Conversas no celular do ex-banqueiro citam a intenção de forjar um assalto contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, como forma de intimidação.

Os documentos mostram uma captura de tela em que Mourão avisa Vorcaro sobre a retirada de uma página da internet que mencionava o relacionamento de Martha com o ex-jogador da NBA Rony Seikaly. Dias antes, o empresário disse à namorada que uma "turma minha do digital" conseguiu "tirar seu negócio do google de casada com Rony". Em outubro de 2024, ele afirmou ter contratado uma "equipe de solo e digital" para monitorar o ex-namorado de Martha.

Planos extravagantes e eventos sociais

Os diálogos ainda mencionam a ideia de convidar Ivanka Trump, filha de Donald Trump, para o Carnaval do Rio de 2025. Vorcaro e a ex-namorada esboçaram uma lista de convidados para uma festa que incluía o jogador francês de futebol Paul Pogba, entre outros nomes. Em junho de 2024, ele afirmou a Martha que estava "todo mundo do Brasil" em Lisboa durante o evento conhecido como "Gilmarpalooza" e sugeriu frequentá-lo.

Os documentos da CPI pintam um retrato vívido de um empresário que navegou entre o luxo desmedido e as sombras do poder, enquanto sua instituição financeira enfrentava uma crise crescente. As revelações destacam as complexas relações entre negócios, política e justiça no cenário brasileiro.