Vice-presidente exige punição severa em escândalo do Banco Master e anuncia saída do MDIC
O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, defendeu publicamente uma apuração rigorosa e punição exemplar para todos os envolvidos no escândalo do Banco Master, que causou prejuízos bilionários a investidores e entidades públicas e privadas, conforme revelações do Banco Central. As declarações foram feitas durante entrevista ao jornalista José Luiz Datena, na estreia do programa Na Mesa com Datena.
Críticas ao sistema de fiscalização e envolvimento de servidores
Alckmin foi enfático ao afirmar que as fraudes no Banco Master não são recentes. "Você não tem um desfalque, uma fraude, do ponto de vista bancário, que começou ontem. Isso vem lá de trás", declarou o vice-presidente. Ele destacou que ficou evidente o envolvimento de pessoas dentro do próprio Banco Central, órgão responsável pela fiscalização do sistema financeiro nacional. "Agora, está ficando claro que tinham pessoas dentro do Banco Central que tinham envolvimentos. Já ficou claríssimo isso. Tem que ser feita apuração rigorosa, punição rigorosa", exigiu.
Posição do governo e liberdade investigativa
Sobre a postura do governo federal e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Alckmin garantiu total liberdade para as investigações conduzidas pela Polícia Federal. "O presidente Lula tem sido claro. Ninguém no governo limita investigação. Nenhuma. É investigação rigorosa. Polícia Federal tem liberdade, o Ministério Público, Poder Judiciário. É apurar e fazer justiça, é isso que se deseja", afirmou. Ele também criticou falhas nos mecanismos de controle, sugerindo que o problema poderia ter sido detectado anteriormente.
Fortalecimento institucional e transparência
Além da punição aos responsáveis, o vice-presidente defendeu o fortalecimento das instituições de controle, incluindo o Banco Central. "Esse é um processo permanente de você melhorar as instituições, aprimorar as instituições. Na democracia, tem que ter transparência, tem que ter clareza", argumentou Alckmin, enfatizando a necessidade de aprimoramento contínuo dos órgãos fiscalizadores.
Contexto das investigações e nova prisão de Vorcaro
Na semana passada, o financista Daniel Vorcaro foi preso novamente pela Polícia Federal, na terceira fase da Operação Compliance Zero. O empresário, que já havia sido alvo de mandado de prisão no ano passado e obtido liberdade provisória com tornozeleira eletrônica, teve a nova prisão fundamentada em mensagens encontradas em seu celular apreendido. Nas conversas, Vorcaro ameaçava jornalistas e pessoas que contrariavam seus interesses.
A Operação Compliance Zero investiga fraudes bilionárias no Banco Master, que causaram um rombo estimado em até R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos, responsável pelo ressarcimento aos investidores prejudicados.
Saída do MDIC e futuro político
Durante a entrevista, Alckmin confirmou oficialmente que deixará o cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio no dia 2 de abril, atendendo às exigências da legislação eleitoral para disputar cargos públicos nas eleições de outubro. A lei estabelece que a desincompatibilização de cargos executivos deve ocorrer até seis meses antes do pleito, com data limite em 4 de abril.
"Olha, Datena, vice-presidente não precisa deixar a vice-presidência, você continua na vice-presidência. Agora, ministério, para qualquer cargo que você for disputar, você tem que se afastar. Então, no dia 2 de abril, cumprindo rigorosamente a lei, nós vamos nos afastar", explicou o vice-presidente, que evitar antecipar seus planos políticos específicos, mas continuará exercendo a vice-presidência durante as tratativas eleitorais.
Análise sobre conflitos internacionais e economia
Questionado sobre os efeitos econômicos da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, Alckmin previu que o Brasil será menos afetado que outros países, devido à sua dependência comercial com China, União Europeia, Argentina e os próprios Estados Unidos - regiões distantes do conflito. "Todos os países saem prejudicados, mas o Brasil é o menos prejudicado, porque nossos grandes compradores, parceiros comerciais são China, União Europeia, Argentina, Estados Unidos", analisou, reconhecendo que o aumento do preço do petróleo já impacta os combustíveis no país.
Cenário eleitoral e indicadores econômicos
Sobre as eleições, Alckmin observou que o cenário político mundial está marcado pela polarização, mas expressou otimismo com a percepção da sociedade sobre a situação econômica brasileira. "No mundo inteiro, você tem eleições bastante polarizadas. Eleição é comparação, você faz uma comparação. Não tem eleição fácil, mas acredito que as coisas tendem a melhorar", afirmou.
Ele destacou indicadores positivos: "O desemprego é o menor da série histórica e a inflação é 4,2%, a menor também. Então, você tem um ganho de renda da população. Salário mínimo com ganho real. Vamos lembrar que 60% dos aposentados e pensionistas vivem com um salário mínimo no Brasil".
PEC da Segurança Pública e combate ao crime
Ao abordar os desafios do combate à criminalidade, Alckmin destacou a aprovação recente da PEC da Segurança Pública pela Câmara dos Deputados, proposta que agora segue para análise no Senado. A iniciativa cria o Sistema Único de Segurança Pública, buscando melhor integração entre as forças de segurança nacionais.
Para o vice-presidente, um dos pontos mais relevantes é o fortalecimento das polícias municipais. "Essa PEC dá mais espaço para a ação local. Não vai trocar as polícias, mas vai trazer mais um. A mudança da PEC dando mais poder à polícia municipal vai fazer a diferença, porque você está muito mais próximo da população local", explicou.
A versão aprovada pelos deputados também atribui expressamente à Polícia Federal o combate a crimes cometidos por organizações e milícias privadas com repercussão interestadual ou internacional, enquanto a Polícia Rodoviária Federal expande suas atribuições para incluir ferrovias e hidrovias federais.
Decisão judicial sobre visitas a Vorcaro
Em desenvolvimento paralelo, o ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, determinou que o presídio federal permita visitas de advogados de Daniel Vorcaro sem gravação. A decisão atendeu a pedido da defesa do banqueiro, autorizando também que os advogados ingressem na penitenciária com cópia impressa dos autos e possibilidade de tomarem notas escritas durante os encontros.



