Vídeos de câmeras corporais revelam embate hierárquico em cena de morte de soldado
Vídeos mostram embate em cena de morte de soldado por tenente-coronel

Vídeos de câmeras corporais revelam embate hierárquico em cena de morte de soldado

Gravações das câmeras corporais de policiais militares expõem uma intensa disputa de poder hierárquico durante a preservação do local onde a soldado Gisele Alves Santana foi baleada na cabeça. As imagens, capturadas em 18 de fevereiro no apartamento do casal no Brás, Centro de São Paulo, mostram o confronto entre um cabo, que insistia na proteção da cena do crime, e o tenente-coronel Geraldo Neto, marido da vítima e oficial de alta patente.

Gisele foi socorrida, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu no hospital. Neto foi preso preventivamente na quarta-feira (18), após se tornar réu por feminicídio e fraude processual, acusado de alterar a cena para simular um suicídio. As gravações acessadas pela reportagem ilustram o momento tenso em que Neto desafia as ordens dos policiais de menor patente.

Desobediência e risco de perda de provas

O tenente-coronel insiste em entrar no banheiro, tomar banho e circular pelo apartamento onde Gisele estava, condutas que acenderam alertas nos investigadores e enfraqueceram sua versão de suicídio. A cronologia do inquérito da Corregedoria da Polícia Militar, compartilhada com a Polícia Civil, inicia às 9h07, quando Neto, sem camisa, se levanta com a chegada do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, seu conhecido.

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Às 9h18, ele comunica a intenção de tomar banho e trocar de roupa, mas os PMs respondem de forma protocolar, permitindo apenas que vista uma camisa e uma calça para seguir à delegacia, sem banho para evitar alterações na cena. A tensão aumenta quando Neto ignora as orientações e adentra o banheiro, registrando o desconforto dos policiais, que temiam a perda de vestígios cruciais, especialmente nas mãos e no corpo do oficial.

Os diálogos captados pela câmera corporal revelam o embate direto. O cabo questiona: "O senhor não saiu do banho agora? O senhor falou que estava tomando banho." Neto responde: "Irmão, eu entrei no banho, eu tava aqui tomando banho, dai eu escutei o barulho e eu abri a porta, quando abri eu vi minha esposa..." O cabo insiste: "É que o senhor sabe da burocracia que é né, você sabe da burocracia que é na PM, então quanto mais rápido agilizar se o senhor puder só colocar uma camiseta." Neto, porém, afirma: "Irmão, eu tenho 34 anos de serviço. Eu sei o que eu to falando. Eu vou tomar banho, irmão."

Consequências e investigações aprofundadas

Nos bastidores, o áudio registra a preocupação da tropa com o comprometimento de provas. Um cabo comenta: "Se tomar banho vai perder tudo os baguio [vestígios] da mão, e as conversas dele tá estranha... porque se fosse um paisano a gente já arrasta pra perto..." Quando Neto retorna ao corredor, já vestido, o dano à cena do crime já ocorreu, afetando possíveis exames de resíduos de pólvora nas mãos, que posteriormente não apresentaram vestígios, algo incomum para quem dispara uma arma.

Para os investigadores, esse é o ponto-chave: a interferência prática na conservação de indícios e o uso da hierarquia para tensionar procedimentos padrão. A sequência do dia amplia as dúvidas sobre a narrativa do oficial. Às 9h37, um coronel chega, afasta os demais militares e determina que apenas ele, Neto e o desembargador permaneçam, com orientação de ir ao Hospital das Clínicas.

Mais tarde, a rotina do imóvel é quebrada novamente: por volta das 18h, três PMs entram para uma limpeza, permanecendo até 18h50. Às 19h09, dois PMs retornam com seguranças do condomínio, ficando cerca de 40 minutos. À noite, às 21h36, Neto volta ao apartamento com duas pessoas, incluindo o cabo Rodrigo, e dez minutos depois saem carregando diversas roupas. As imagens registram mais quatro retornos, com o último às 22h46.

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Robustecimento das suspeitas

Em conjunto, vídeos, áudios e horários oferecem à investigação mais do que uma linha do tempo: contextualizam a intenção e materializam a influência exercida na cena, do banho à limpeza e às idas e vindas ao apartamento. É essa soma de condutas — insistir em tomar banho, entrar e circular apesar das advertências, afastar equipes, permitir limpezas e retornar para retirar itens — que robustece a desconfiança sobre a tese de suicídio defendida por Neto e reposiciona o foco do inquérito.

Nas imagens, o conflito entre protocolo e hierarquia deixa de ser abstrato e vira prova audiovisual: aquilo que os investigadores podem ver, ouvir e cronometrar. A equipe de reportagem não conseguiu localizar a defesa de Neto para comentar o assunto. Em outras ocasiões, seu advogado afirmou que o cliente é inocente e que o caso é de suicídio, mas as evidências visuais sugerem um cenário distinto, fortalecendo as acusações de feminicídio e fraude processual.