MP do Acre busca indenização milionária para família do 'Crime da Motosserra' após quase 30 anos
MP do Acre busca indenização para família do Crime da Motosserra

MP do Acre busca reparação histórica para família do 'Crime da Motosserra' após quase 30 anos

Quase três décadas após o brutal episódio conhecido como 'Crime da Motosserra', o Ministério Público do Acre (MP-AC) defende que o caso precisa permanecer vivo na memória coletiva. A afirmação ocorre no contexto de uma ação civil pública, protocolada em janeiro deste ano, que exige do Estado o pagamento de uma indenização milionária à família das vítimas, além de pensão vitalícia e o reconhecimento público das falhas institucionais em um dos crimes mais chocantes da história acreana.

O crime que abalou o Brasil

O caso, que ganhou repercussão nacional, aconteceu em 1996, quando Agilson Firmino, conhecido como 'Baiano', e seu filho Wilder Firmino dos Santos, de apenas 13 anos, foram sequestrados, torturados e assassinados por policiais ligados a um grupo de extermínio. Os homicídios foram parte de uma vingança pela morte de Itamar Pascoal, irmão de Hildebrando Pascoal, que foi condenado a 18 anos pelo crime em 2009. A possibilidade de indenização surpreendeu Emanuela Firmino, filha de Agilson, que já havia perdido a esperança de responsabilizar o Estado.

Motivação do MP: resgate da memória e reparação

O promotor Thalles Ferreira, autor da ação, enfatizou que o resgate histórico é um pilar fundamental da iniciativa, que busca indenização e desculpas públicas à família. "O Ministério Público, principalmente a promotoria dos direitos humanos, tem uma preocupação com a questão do resgate da memória. E a reparação é imprescindível não só para o Estado do Acre, mas imprescindível para o Brasil", declarou. Ferreira criticou a tendência de tratar o crime como um fato histórico superado, alertando para distorções nas redes sociais por pessoas que não vivenciaram o período.

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Crime praticado por forças do Estado

Na avaliação do promotor, a gravidade do episódio está diretamente ligada à condição dos autores como agentes públicos na época dos assassinatos. "Foi um crime praticado por forças do Estado, por pessoas que deveriam proteger a vida, proteger a dignidade da pessoa humana. E o que nós tivemos foram casos bárbaros de tortura", relembrou. Além de manter viva a memória, a ação busca garantir reparação à família, que há quase 30 anos convive com as consequências da violência. Ferreira destacou que a reparação vai além da compensação financeira, envolvendo o reconhecimento estatal das falhas.

Processo avança com tentativa de acordo

O promotor confirmou que o caso já avançou na Justiça e deve passar por uma tentativa de conciliação entre as partes entre março e abril. Caso não haja consenso, o processo seguirá para decisão judicial. "Foi marcada uma audiência de conciliação. O Ministério Público vai participar juntamente com o Estado para ver se ele reconhece esse pedido e faça um acordo", afirmou. Ferreira reforçou que o papel do MP é impedir que episódios como esse sejam apagados com o tempo, considerando a manutenção da história como parte essencial da busca por justiça.

Família luta por dignidade após décadas de sofrimento

Emanuela Firmino relatou que a família foi informada durante o julgamento de 2009 sobre a possibilidade de indenização, mas a promessa nunca se concretizou. "Já se passaram quase 30 anos e eu mesma já tinha desistido. Alguns advogados diziam que, pelo tempo, a gente não teria como entrar com ação", disse. Ela destacou a situação precária da mãe, Evanilda Oliveira, que perdeu o marido e o filho no crime e enfrenta problemas de saúde física e psicológica desde então.

Segundo Emanuela, a aposentadoria agravou o quadro emocional da mãe, que convive intensamente com as lembranças traumáticas. O custo de um plano de saúde para idosos está fora da realidade financeira da família, que sobrevive com um salário mínimo. "Minha mãe hoje é uma pessoa infeliz. Às vezes eu chego na casa dela, ela tá chorando [...] Hoje ela é uma pessoa solitária, não casou novamente, é uma pessoa infeliz", desabafou.

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Ela enfatizou que a indenização não visa apagar o passado, mas garantir condições mínimas para a mãe, de 69 anos, ter uma vida mais digna. "Nenhum valor vai trazer eles de volta. Mas eu espero que pelo menos minha mãe tenha condição de ter um plano de saúde [...] Ela merece envelhecer com dignidade", concluiu, refletindo sobre a luta contínua por justiça e reparação após quase três décadas de impunidade e dor.