Ex-diretora revela esquema de fuga em presídio da Bahia envolvendo ex-deputado federal
Ex-diretora detalha esquema de fuga em presídio com ex-deputado

Ex-diretora de presídio detalha participação de ex-deputado federal em esquema de fuga na Bahia

A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, localizado no extremo sul da Bahia, forneceu detalhes minuciosos sobre o esquema criminoso montado para facilitar a fuga de detentos da unidade prisional em dezembro de 2024. Após mais de um ano presa, Joneuma Silva Neres firmou um acordo de delação premiada com o Ministério Público da Bahia e, desde o mês passado, cumpre prisão domiciliar.

Colaboração com a Justiça e revelações impactantes

Na colaboração registrada em 9 de fevereiro deste ano, Joneuma detalhou sua própria participação no crime e afirmou que agiu a pedido do ex-deputado federal Uldurico Júnior, do PSDB, com quem mantinha um relacionamento amoroso. Segundo seu relato, o ex-parlamentar realizou reuniões com os detentos e negociou apoio na fuga por R$ 2 milhões, tendo recebido um adiantamento de R$ 200 mil.

O montante foi repassado em espécie, entregue em caixas de sapato, além de transferências realizadas via PIX, conforme descrito pela ex-diretora. Ela ainda revelou que foi ameaçada por Uldurico Júnior para que não revelasse nada sobre o crime.

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Reuniões privadas e pressões no sistema prisional

Joneuma afirmou ao Ministério Público que conheceu Uldurico Júnior quando trabalhava na Unidade Prisional de Teixeira de Freitas, onde ocupava um cargo administrativo. Conforme seu relato, o ex-deputado já havia indicado diretores para o comando da unidade e costumava conversar com os internos, levando outras pessoas nessas visitas, incluindo alguns vereadores.

As conversas com os internos eram realizadas "de portas fechadas" e tidas como "normal", segundo a ex-diretora. Em 14 de março de 2024, ela foi nomeada como diretora do Conjunto Penal de Eunápolis e, no dia seguinte, Uldurico compareceu ao presídio acompanhado de várias pessoas, entre elas o candidato a vereador Alberto Cley Santos Lima, conhecido como Cley da Auto Escola.

Uldurico Júnior teria solicitado uma conversa com os chefes de todas as facções custodiadas no presídio, e Joneuma disse que atendeu ao pedido após se sentir pressionada. Entre os detentos estavam Ednaldo Pereira Souza, conhecido como Dada, chefe da facção criminosa Primeiro Comando de Eunápolis, e outros líderes faccionais.

Negociação financeira e métodos de pagamento

Segundo Joneuma, em 14 de outubro de 2024, após perder a eleição para prefeito de Teixeira de Freitas, Uldurico compareceu a Eunápolis pressionando-a para ter mais contato com Dada, com a intenção de conseguir recursos financeiros. O ex-deputado afirmou que precisava de dinheiro com urgência para prestar contas e pagar dívidas.

Foi nesse contexto que Uldurico negociou a fuga com Dada por R$ 2 milhões. A operação que culminou na prisão de Uldurico, realizada na última quinta-feira (16), foi batizada de "Duas Rosas" porque, segundo a investigação, ele e Joneuma usavam a expressão "chorar as rosas" para se referir ao pagamento do valor acordado.

O acordo foi firmado em 2 de novembro de 2024 durante um encontro em um hotel de Eunápolis, com a participação do candidato a vereador Alberto Cley e uma pessoa de confiança de Dada. O valor seria pago em espécie no dia 31 de dezembro em Porto Seguro, mas Uldurico solicitou um adiantamento de R$ 350 mil, recebendo finalmente R$ 200 mil.

Entrega do dinheiro e repasses familiares

Na noite de 4 de novembro de 2024, Joneuma foi sozinha a uma residência no bairro Juca Rosa, onde recebeu o dinheiro em uma caixa de sapato. No dia seguinte, ela entrou em contato com o pai de Uldurico Júnior, o político Uldurico Alves Pinto, via aplicativo de mensagens, para combinar a entrega.

A ex-diretora entregou o dinheiro na casa do pai do ex-deputado em Teixeira de Freitas, onde estavam presentes o pai, a madrasta, uma funcionária doméstica e um assessor da família. O assessor conferiu o dinheiro e o pai de Uldurico ficou com R$ 150 mil.

Em relação ao restante, Joneuma depositou R$ 21.600 na conta de Uldurico Júnior e realizou um PIX de R$ 24 mil para a conta de outro homem. Após o pagamento do adiantamento, Uldurico teria passado a pedir que Joneuma intermediasse a comunicação com Dada.

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Mudanças no plano e ameaças

O plano inicial era favorecer apenas a fuga de Dada e Saguin, sub-líder do PCE, mas eles e outros 14 detentos acabaram fugindo. Houve mudanças também na data para execução do plano, que seria originalmente no dia 31 de dezembro, quando Joneuma estaria de férias.

Dada teria decidido antecipar a fuga após ser informado por um policial que haveria fiscalização no presídio no Réveillon e ele seria transferido. Após a repercussão da fuga em massa, Uldurico questionou Joneuma sobre as mudanças.

A ex-diretora do presídio disse que foi ameaçada por Uldurico durante um encontro em Salvador para que não contasse nada sobre o esquema criminoso. Nessa ocasião, os dois combinaram a mesma versão para a defesa.

Citação a ex-ministro e reações das defesas

Joneuma afirmou ainda que, segundo Uldurico, metade do dinheiro da fuga seria para um chefe, referindo-se ao ex-ministro Geddel Vieira Lima. À época, Uldurico estava filiado ao MDB, partido que tem Geddel como um de seus líderes na Bahia.

Ela relatou que Uldurico costumava encaminhar mensagens supostamente enviadas por Geddel, cobrando os valores. Procurado, o político negou envolvimento com o caso, classificando Uldurico como "irresponsável, inconsequente e leviano".

A defesa de Uldurico Júnior informou que todas as alegações da delação são falsas, com intuito de se livrar da responsabilidade. "Uldurico jamais teve conhecimento de plano algum de fuga, nem recebeu dinheiro nenhum por tal fato", afirmou.

A Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização informou que tem colaborado "de forma irrestrita" com todas as informações necessárias à investigação desde que a fuga em massa ocorreu.