Perícia aponta contradições em caso de PM morta: árvore de Natal e altura da vítima
Contradições em caso de PM morta: árvore de Natal e altura

Contradições na cena do crime colocam em xeque versão de oficial da PM

A perícia técnica identificou uma série de inconsistências graves na versão apresentada pelo tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto sobre a morte de sua esposa, a policial militar Gisele Alves, de 38 anos. A vítima foi encontrada baleada dentro do apartamento do casal, em São Paulo, no dia 18 de fevereiro, e os laudos reforçam a suspeita de que a cena foi manipulada para simular um suicídio.

Altura da vítima e posição da arma geram dúvidas

De acordo com o depoimento de Geraldo Neto, ele estaria tomando banho quando ouviu um barulho. Ao abrir a porta do banheiro, teria visto a esposa caída no chão da sala, com um ferimento na cabeça causado por disparo de arma de fogo. O policial afirmou que a arma ficava guardada em cima do guarda-roupa, no quarto.

No entanto, a perícia concluiu que Gisele não teria altura suficiente para alcançar a arma no local indicado pelo marido. Este ponto crucial coloca em dúvida a possibilidade de a vítima ter cometido suicídio utilizando a arma da forma descrita.

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Árvore de Natal impede visualização descrita

Outro elemento decisivo apontado pelos peritos é a presença de uma árvore de Natal montada na sala do apartamento. Segundo relatos dos socorristas que atenderam à ocorrência, a posição em que o objeto estava não permitiria que o tenente-coronel conseguisse enxergar a mulher caída no chão diretamente da porta do banheiro, como ele afirmou.

Osvaldo Nico Gonçalves, secretário de Segurança Pública de São Paulo, destacou a importância dos primeiros atendentes: "Eles não se intimidaram porque era um tenente-coronel que estava lá, eles passaram a informação correta do que viram aos seus superiores", afirmou em entrevista.

Intervalo de 30 minutos e tentativa de eliminar provas

A investigação revelou ainda um intervalo preocupante de quase 30 minutos entre o horário em que uma vizinha afirmou ter ouvido o tiro (por volta das 7h28) e a primeira ligação feita por Geraldo Neto (registrada às 7h55). Significativamente, a primeira chamada não foi para o socorro, mas para o comandante do oficial.

Para a polícia, esse intervalo pode ter sido utilizado para alterar a cena do crime. A perícia encontrou vestígios de sangue no box do banheiro, em uma toalha e na bermuda usada por Geraldo Neto, reforçando a suspeita de tentativa de eliminar provas. Mesmo após o disparo, o tenente-coronel insistiu em tomar banho, apesar de alertas dos colegas de que isso poderia comprometer a investigação.

Conclusão da perícia descarta suicídio

Com base na análise minuciosa do local, nos vestígios encontrados e na trajetória do tiro, os peritos afirmam categoricamente que o disparo não foi compatível com suicídio. A conclusão técnica é de que Gisele foi segurada por trás e baleada do lado direito da cabeça, próximo à porta da varanda do apartamento.

Feminicídio e novas denúncias

Geraldo Neto foi denunciado pelo Ministério Público e se tornou réu por feminicídio e fraude processual. A acusação sustenta que, além de matar a esposa, ele teria manipulado a cena do crime para simular um suicídio. Em depoimento, o tenente-coronel manteve a versão de que Gisele tirou a própria vida.

A investigação também identificou indícios de um histórico de violência doméstica, incluindo violência psicológica, moral e financeira. Mensagens obtidas pela Polícia Civil mostram que era Gisele quem manifestava o desejo de se separar, contrariando a versão apresentada pelo marido.

O caso ganhou novos desdobramentos com denúncias de assédio sexual e moral feitas por outras policiais militares contra o tenente-coronel, que agora também são apuradas pela Corregedoria da PM.

Família busca justiça

Para a família de Gisele, as conclusões da perícia e o avanço das investigações representam um passo importante na busca por justiça. O advogado dos parentes da vítima afirmou: "É um sentimento que ameniza um pouco a dor. Claro, não sana dor, mas é gratificante para a família que está público e notório que ele que cometeu o feminicídio em desfavor da Gisele".

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As contradições apontadas pela perícia - desde a altura da vítima até a presença da árvore de Natal - constroem um quadro consistente que desmonta a versão apresentada pelo acusado e fortalece as acusações de feminicídio com manipulação de cena do crime.