Carta manuscrita é peça-chave em assassinato de taxista em Boa Vista
Uma carta manuscrita encontrada na cena do crime se tornou a evidência fundamental para a Polícia Civil desvendar o assassinato premeditado do taxista Mário Araújo de Oliveira, ocorrido em setembro de 2023 no bairro João de Barro, em Boa Vista, Roraima. O bilhete, escrito pela própria esposa da vítima, Auana Sagica Ribeiro, foi localizado na residência do casal e anexado ao inquérito policial como prova contundente do planejamento do homicídio.
Conteúdo da carta revela ameaça direta
No documento, Auana menciona uma viagem a trabalho e faz uma ameaça explícita sobre o fim do relacionamento conjugal. "Quando eu voltar resolvo esse problema da nossa separação. Eu quis entrar em acordo com você, porém você não quis, então vou resolver do meu jeito quando voltar...", escreveu a acusada. Para os investigadores, essa passagem demonstra claramente a intenção premeditada de cometer o crime, especialmente após a recusa do marido em aceitar um acordo na divisão de bens durante o processo de separação.
Durante as investigações, Auana tentou se defender alegando que o bilhete era antigo, mas familiares de Mário confirmaram à polícia que a separação era recente e que ela havia retornado de uma viagem ao interior do estado poucos dias antes do assassinato. Os investigadores interpretaram a frase "resolver do meu jeito" como a confirmação do plano principal, motivado por interesse financeiro para herdar o patrimônio do taxista.
Trama envolve amante adolescente e tio
A Polícia Civil concluiu que o assassinato foi planejado por Auana com a ajuda de seu amante, Thiago Galvão Paulino, que na época tinha 16 anos, e do tio dele, Enoque Galvão Paulino, de 28 anos. O trio forjou um assalto à residência do casal na tentativa de encobrir o homicídio premeditado. A principal motivação de Auana, segundo as investigações, era ficar com todos os bens do marido.
Atualmente, Auana Sagica Ribeiro e Enoque Galvão Paulino são réus desde novembro de 2024 e aguardam julgamento por júri popular, embora a Justiça ainda não tenha definido a data. Thiago Galvão Paulino, agora com 18 anos, continua respondendo pelo caso na Vara da Infância e da Juventude. O inquérito também confirmou que Auana mantinha um relacionamento extraconjugal com o adolescente na época do crime.
Reviravolta nas investigações
Inicialmente registrado como latrocínio (roubo seguido de morte), o caso tomou um novo rumo quando a Polícia Civil descobriu que a invasão foi armada para encobrir um assassinato planejado. Minutos antes do crime, o adolescente e seu tio estavam em um bar próximo à casa e pediram emprestado o celular de um homem. Eles usaram o aparelho para avisar Auana que estavam a caminho, mas devolveram o telefone sem apagar as mensagens.
No dia seguinte, ao ler as conversas, o dono do celular tentou extorquir R$ 20 mil de Auana em troca de silêncio. Como não recebeu o pagamento, ele enviou capturas de tela das mensagens para as irmãs de Mário, entregando assim a prova fundamental da trama à família. Em uma das conversas, o homem pressiona Auana e repete as mensagens que ela havia enviado aos assassinos para facilitar o crime, incluindo instruções como "coloque a arma na minha cabeça" e "você entra pelo outro lado da casa".
Execução do crime e evidências
O inquérito concluiu que essas orientações permitiram que Thiago e seu tio entrassem na residência sem precisar arrombar as portas. Em outra mensagem, Auana chega a confessar o crime ao dizer: "Se eu for presa, vou ter que dizer quem são os outros e quem sabe de tal situação".
Durante a execução do crime, Enoque imobilizou o taxista com uma técnica de imobilização conhecida como "gravata", enquanto o adolescente efetuou três disparos com um revólver calibre .38 pertencente à própria vítima. Para sustentar a versão do roubo, os executores fugiram levando o carro de Mário, um veículo Fiat Strada que foi abandonado poucas horas depois.
Além das mensagens no celular, a polícia anexou ao processo um áudio vazado em que o adolescente confessa friamente a autoria dos disparos. A reportagem tentou contato com Auana Sagica, mas ela não quis se manifestar sobre o caso. Enoque Galvão não foi localizado pela reportagem, e a defesa de Thiago Galvão, que está preso por outro crime, também não foi encontrada.



