A esperança de uma reviravolta econômica impulsionada pela exploração de petróleo na costa do Amapá está transformando a dinâmica de Oiapoque, cidade fronteiriça no extremo norte do Brasil. O município de 30 mil habitantes, porta de entrada para a Guiana Francesa, vive um aumento populacional acelerado, especulação imobiliária e a formação de novos bairros sem infraestrutura, tudo alimentado pela expectativa dos royalties do pré-sal na chamada Bacia da Foz do Amazonas.
Migração e especulação moldam nova Oiapoque
A história da paraense Sheila Cals, de 69 anos, sintetiza o movimento. Após 35 anos vivendo na Guiana Francesa, a costureira decidiu retornar ao Brasil e se estabelecer em Oiapoque há cerca de dois anos, motivada pelas notícias do potencial petrolífero na região. "Sempre foi meu sonho voltar ao Brasil. E agora ficamos na expectativa de acontecer aqui o que aconteceu na Guiana, no Suriname", diz ela, referindo-se ao boom econômico vivido pelos países vizinhos com a exploração do recurso.
Sheila não está sozinha. A Secretaria de Educação de Oiapoque já contabiliza 807 novos estudantes interessados em vagas para 2026, um aumento de 16% na rede municipal. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano emitiu cerca de 800 alvarás de construção e transferência apenas em 2025. O geógrafo Edenilson Moura, professor da Universidade Federal do Amapá (Unifap), documenta a transformação: "A cidade está cheia de edificações sendo construídas... hoje já percebo edifícios de quatro, cinco pavimentos".
O aquecimento do mercado é visível. Moradores relatam que aluguéis saltaram de R$ 1.200 para R$ 1.900 de um mês para o outro. A corretora Ivete Sarmento, com 23 anos de experiência na cidade, alerta para uma onda de especulação: "Tem pessoas que estão usando do oportunismo desses boatos de que vai ganhar muito dinheiro muito rapidamente. Enfim, uma ilusão". Ela teme um efeito cascata nos preços de alimentos e serviços.
Novos bairros surgem sem planejamento na expectativa do ouro negro
A expansão urbana desordenada é a face mais crítica da transformação. Nas proximidades do aeródromo, uma faixa de mais de três quilômetros ao longo da BR-156 viu surgir ocupações como Belo Monte, Nova Conquista, Areia Branca e Independência. Zione de Paiva, a "Loira do Belo Monte", presidente da associação de moradores, estima que mais de 100 casas foram construídas apenas em seu bairro no último ano, totalizando cerca de 450.
A bióloga Joessy de Cássia, presidente da associação do Independência, explica que a ocupação acelerou com o início da prospecção da Petrobras: "Bastou as pessoas fazerem a primeira derrubada de árvores para o povo se proliferar". As casas, em sua maioria de madeira, se erguem em ruas de terra, sem acesso a água ou qualquer infraestrutura urbana. A prefeitura entrou com ação de reintegração de posse em 2025, mas o Tribunal de Justiça determinou mediação, reconhecendo um conflito fundiário coletivo de grande escala.
Enquanto isso, a prefeitura, atualmente sob o comando do presidente da Câmara, Pedro Guido (PP), após a cassação do prefeito Breno Almeida (PP) por compra de votos, informa que o planejamento para regularização fundiária da área está em andamento, com previsão de conclusão em 2026.
Petrobras avança com pesquisa, mas futuro ainda é incerto
O coração dessa expectativa bate a 150 quilômetros da costa, onde a Petrobras iniciou a prospecção em águas profundas na Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial. A licença do Ibama foi concedida em outubro, após anos de debates sobre o impacto ambiental. A empresa tem até março de 2026 para concluir os estudos e avaliar a viabilidade econômica da exploração.
Um contratempo ocorreu em 6 de janeiro, quando a Petrobras interrompeu a perfuração do poço devido a um vazamento de fluido de perfuração. A empresa não informou quando os trabalhos serão retomados.
Se a exploração for viável, as promessas são grandes. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o projeto pode elevar o PIB do Amapá em até 61,2% e gerar cerca de 54 mil empregos diretos e indiretos. O estado atualmente tem o terceiro menor PIB do país. Cidades litorâneas como Oiapoque seriam beneficiadas com royalties, uma compensação financeira pela exploração de recursos não renováveis. Para se ter uma ideia, Maricá (RJ), a cidade que mais recebe royalties no Brasil, arrecadou R$ 2,6 bilhões em 2025.
A Petrobras, em nota, afirmou que gera "impactos positivos" na região, como geração de emprego e aumento de arrecadação, mas destacou que não é sua função realizar obras de urbanização no município.
Enquanto aguardam, os moradores dividem-se entre esperança e cautela. "Oiapoque está crescendo em população, mas não em desenvolvimento", define Sheila Cals. Já Loira, do Belo Monte, expressa uma preocupação comum: "A gente tem receio, sim, porque se houver vazamento de petróleo, vai afetar muitas famílias que vivem da pesca... Mas, para muita gente que depende de emprego, a expectativa é maior do que o receio".
A cidade, cuja economia ainda se baseia no comércio fronteiriço, pesca e agricultura, vive um momento de transição. As eleições municipais estão marcadas para abril de 2026, e o primeiro plano diretor da cidade está em elaboração. O futuro de Oiapoque, por ora, parece inextricavelmente ligado ao que for encontrado – ou não – nas profundezas do oceano, na ponta mais ao norte do litoral brasileiro.