Pesquisa da Unesp revela como plantas sobreviveram à lama tóxica de Mariana e podem recuperar áreas
Plantas resistem à lama de Mariana e ajudam na recuperação de áreas

Pesquisa da Unesp revela estratégias de plantas para sobreviver em áreas contaminadas por metais pesados

Um estudo coordenado pelo Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, no interior de São Paulo, trouxe à tona informações valiosas sobre como duas espécies de plantas conseguiram sobreviver na lama tóxica de metais pesados gerada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), ocorrido em novembro de 2015. A pesquisa, que ganhou destaque internacional ao ser capa da revista científica American Chemical Society, analisou detalhadamente as espécies conhecidas como aça-peixe (Vernonanthura polyanthes) e pimenta-de-macaco (Piper aduncum), revelando mecanismos de defesa que podem ser fundamentais para a recuperação de solos contaminados em larga escala.

O desastre ambiental e seu impacto devastador

O rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro da Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton, é considerado um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil. O evento trágico resultou na morte de 19 pessoas e no soterramento completo do subdistrito de Bento Rodrigues, além de causar danos ambientais irreparáveis. Cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos foram despejados no meio ambiente, percorrendo uma extensão de 663 quilômetros através da calha dos rios Gualaxo do Norte, do Carmo e Rio Doce, contaminando solos, água e ecossistemas ao longo do percurso.

Metodologia científica avançada para entender a resistência vegetal

O trabalho de pesquisa, que contou com a participação de cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e das universidades federais de Ouro Preto (UFOP) e Minas Gerais (UFMG), comparou plantas que cresceram na área diretamente atingida pelo desastre com exemplares da mesma espécie coletados em locais não contaminados. O objetivo principal era compreender as estratégias de sobrevivência desenvolvidas por essas plantas em um ambiente extremamente hostil, três anos após a tragédia.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Para extrair a chamada "impressão digital" química das plantas, os pesquisadores adotaram um processo meticuloso que começa com a desidratação das folhas em nitrogênio líquido, garantindo a preservação das propriedades originais dos tecidos vegetais. Em seguida, as amostras são transformadas em um pó fino e dissolvidas em solventes específicos, passando por equipamentos de ultrassom e filtragem avançada. O resultado final é um extrato concentrado que gera gráficos detalhados sobre o metabolismo vegetal, revelando com precisão como cada espécie reagiu à contaminação por metais pesados.

Mecanismos de defesa distintos e altamente eficazes

Os cientistas identificaram que cada uma das duas espécies estudadas desenvolveu uma tática diferente, porém igualmente eficaz, para lidar com a toxicidade extrema do solo contaminado. A planta aça-peixe adotou uma estratégia baseada na produção de fitoquelatinas, que são peptídeos (proteínas) especializados na absorção de metais pesados. "A planta aça-peixe, a gente percebeu que ela usou uma estratégia usando o que a gente chama de fitoquelatinas, que são peptídeos (proteínas), que são capazes de absorver metais, então retirando esses metais do meio celular e facilitando que a planta sobreviva nessa exposição", explicou Alan Cesar Pilon, professor do Instituto de Química da Unesp e um dos coordenadores da pesquisa.

Já a pimenta-de-macaco seguiu um caminho diferente, optando por produzir substâncias com alta capacidade antioxidante. "No caso da piper, essa planta optou por produzir substâncias com bastante capacidade antioxidante, então reduzindo o processo de oxidação por conta desses metais", completou o professor Pilon. De acordo com Norberto Lopes, professor da USP de Ribeirão Preto que também participou do estudo, essas substâncias criam uma espécie de "gaiola" molecular que sequestra os metais pesados do solo e os armazena de forma não tóxica dentro dos tecidos vegetais, neutralizando seu potencial danoso.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Alerta sobre uso medicinal e oportunidade para reflorestamento

Pelo fato de conseguirem "sequestrar" os metais pesados de maneira eficiente, essas plantas tornam-se candidatas ideais para programas de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. Elas ajudam a limpar progressivamente o solo contaminado, criando condições para que outras espécies menos resistentes possam voltar a crescer e restabelecer o equilíbrio ecológico. No entanto, o professor Alan Cesar Pilon faz um alerta importante sobre o uso medicinal tradicional dessas plantas pelas comunidades locais. "O ponto importante é, elas são plantas medicinais, elas já têm uma importância para essas comunidades. Então, nesse ponto de vista, é importante que a gente repense como que essas comunidades vão utilizar essas plantas, se elas realmente possuem uma quantidade maior de metais, isso poderia impactar. Mas acho que é importante destacar que essas plantas podem ser candidatos para restaurar esse bioma, porque elas são capazes de resistir", afirmou o pesquisador.

Esta pesquisa representa um avanço significativo no entendimento da resiliência vegetal frente a desastres ambientais de grande magnitude. As descobertas não apenas elucidam os mecanismos de sobrevivência desenvolvidos por espécies nativas, mas também abrem caminho para estratégias mais eficazes de recuperação de áreas contaminadas, combinando conhecimento científico tradicional com inovações metodológicas de ponta. O estudo serve como um lembrete poderoso da capacidade de adaptação da natureza e da importância da pesquisa científica para enfrentar os desafios ambientais contemporâneos.