Estudo da Ufopa revela presença de metais tóxicos em peixes do Oeste do Pará
Uma pesquisa realizada por especialistas do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND) da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) identificou a presença de metais tóxicos, incluindo mercúrio, arsênio, cádmio e chumbo, em peixes consumidos em duas regiões do estado. O estudo, no entanto, não conclui que os peixes estão impróprios para o consumo, destacando que, dependendo da localidade e das espécies, há variações significativas nas concentrações dessas substâncias.
Metodologia e áreas de coleta
A coleta de amostras de pescado foi conduzida nos municípios de Faro, Juruti, Santarém e Oriximiná, localizados no Baixo Amazonas, e em Itaituba, no Sudoeste do Pará. A pesquisa analisou seis espécies de peixes, avaliando a presença de metais tóxicos sob dois cenários de consumo: o cenário brasileiro, com uma ingestão média de 24 gramas por pessoa por dia, e o cenário amazônico, que considera um consumo muito mais elevado, de 462 gramas por pessoa por dia, comum em comunidades ribeirinhas.
As espécies investigadas incluem peixes predadores, como tucunaré, surubim-pintado, pirarucu e piranha, e duas espécies não predadoras: aracu e acari. A escolha dessas espécies baseou-se na sua presença em todas as localidades estudadas e no seu alto valor cultural e alimentar na região.
Contexto ambiental e impactos das atividades humanas
A seleção dos municípios para a pesquisa reflete os desafios ambientais enfrentados pela região, que incluem a mineração artesanal de ouro, muitas vezes ilegal, e grandes projetos de mineração de bauxita. Essas atividades são fontes significativas de contaminação, especialmente por mercúrio e outros metais pesados.
Em Itaituba, a mineração de ouro tem aumentado consideravelmente, com o uso de equipamentos pesados que intensificam os danos ambientais. Em Oriximiná e Juruti, a mineração de bauxita, ativa desde 1969 e 2009, respectivamente, gera resíduos como a lama vermelha, que possui alta alcalinidade e pode conter metais pesados em concentrações elevadas.
Além disso, a região está passando por uma rápida transformação agrícola, com a expansão da soja e do milho, o que tem levado ao desmatamento e à erosão do solo. Essas mudanças podem liberar mercúrio naturalmente presente nos solos, aumentando sua disponibilidade nos ecossistemas aquáticos.
Santarém, embora não tenha atividades minerais diretas, é afetada pela carga de sedimentos transportada pelos rios Tapajós e Amazonas, que recebem poluição de outras áreas. Faro, por sua vez, sofre pressão de atividades agrícolas, desmatamento e queimadas, que podem impactar a qualidade do pescado.
Resultados e riscos à saúde
Os resultados do estudo indicam que peixes carnívoros apresentam níveis mais altos de mercúrio, podendo ultrapassar limites seguros quando consumidos frequentemente. "Altas concentrações de mercúrio se encontram nos peixes predadores, como o tucunaré, a piranha, o surubim-pintado e o pirarucu", explicou o professor Fábio Albuquerque, um dos pesquisadores responsáveis.
No cenário amazônico de alto consumo, os dados sugerem riscos à saúde ao longo da vida, principalmente devido a efeitos neurológicos associados ao mercúrio. Em algumas amostras, o arsênio também contribuiu para um risco potencial de câncer.
O estudo destaca que, enquanto no cenário brasileiro os riscos são geralmente baixos, no cenário amazônico, o consumo de certas espécies, como acari e pirarucu, em cidades como Faro, Juruti e Santarém, pode resultar em risco inaceitável para populações ribeirinhas devido à ingestão de arsênio.
Recomendações e necessidade de monitoramento
A pesquisa reforça a necessidade de monitoramento ambiental contínuo e de ações de saúde pública específicas para populações com alto consumo de pescado. As diretrizes nacionais de segurança alimentar não refletem adequadamente a realidade amazônica, onde o consumo de peixe é muito mais intenso.
"Vale ressaltar que os metais pesados ocorrem naturalmente nos ecossistemas, mas as atividades antrópicas como mineração, desmatamento e queimadas favorecem o aumento das concentrações que chegam aos organismos aquáticos", alertou Albuquerque. O estudo serve como um chamado para maior atenção às degradações ambientais na região, que podem elevar os níveis de contaminação a patamares mais perigosos.



