Maruim transforma verão catarinense em pesadelo para moradores rurais
Em um cenário paradoxal onde temperaturas superam os 30°C, habitantes da zona rural de Ilhota, município de 17 mil pessoas no Vale do Itajaí, Santa Catarina, são obrigados a usar casacos e roupas compridas. A razão? Uma infestação crônica do mosquito maruim, pequeno inseto cuja picada causa intensa irritação, coceira e pode transmitir doenças como a Febre do Oropouche.
Dezoito anos de convivência forçada com o inseto
A situação, que perdura por pelo menos 18 anos, concentra-se especialmente no Morro do Baú, região rural do município. Moradores relatam que o problema intensificou-se significativamente após a grande enchente de 2008, tragédia que soterrou 32 pessoas sob a lama, e tornou-se insustentável nos últimos três anos.
Josiane Richart, residente na localidade há mais de quatro décadas, descreve a evolução do problema: "Meu falecido pai falava que, na roça, sempre tinha maruim, mas pouco. Depois de 2008, na tragédia, piorou e começou a ter muitos, mas ainda suportava. Hoje em dia, ninguém suporta mais. Casas somente fechadas; na rua, só de roupa comprida e repelente".
Fatores que alimentam a proliferação
O pesquisador Caio Cezar Dias Corrêa, doutor em zoologia pelo Museu Nacional da UFRJ e pós-doutorando na UFSC, analisa que a enchente de 2008 pode ter contribuído temporariamente para o aumento populacional dos insetos, mas atribui o "boom" atual principalmente ao manejo inadequado nas plantações de banana, cultura comum na região.
"A dinâmica populacional já estava desenfreada desde antes, mas a soma dos fatores influenciou que esse aumento fosse ainda maior", afirmou o especialista, destacando que a bananeira em si não é a culpada, mas sim o tratamento dado aos resíduos após a colheita.
Manejo de bananais como criadouro ideal
Corrêa explica detalhadamente o ciclo: "Um dos processos de manejo das plantações de bananas é o corte do tronco após a colheita, deixando exposta esta parte que entrará em processo de decomposição, sendo o local perfeito para a criação das larvas. As folhas descartadas em decomposição também funcionam como local de criadouro, mas menos efetivas do que os troncos".
O mosquito Culicoides paraensis (nome científico do maruim) ocorre desde o sul dos Estados Unidos até a Argentina e é o principal vetor da Febre Oropouche. Seus imaturos utilizam preferencialmente troncos de bananeiras cortados como criadouro.
Consequências do cotidiano insustentável
A vizinha Tatiana Reichert relata que os mosquitos "avançam no rosto da gente", tornando a vida ao ar livre praticamente impossível. As residências mantêm portas e janelas permanentemente fechadas, com ventiladores ligados continuamente para amenizar o calor do verão - que neste mês atingiu 34°C em Ilhota, segundo monitoramento da Epagri/Ciram.
Diferentemente de pernilongos e do mosquito da dengue, os maruins precisam cortar a superfície da pele para se alimentar, causando maior irritação. Sua proliferação ocorre preferencialmente onde há matéria orgânica em decomposição, como mangues, brejos e pântanos.
Falta de soluções e busca por alternativas
A prefeitura municipal informa que ainda não existe uma substância específica comprovadamente eficaz no combate ao inseto. No entanto, está em fase de contratação da empresa Nório, de Joinville, para realizar testes técnicos experimentais de um produto com potencial de controle.
A empresa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc) para testes na vizinha Luiz Alves, que declarou situação de emergência devido à infestação em 2024.
Convergência de fatores agravantes
O pesquisador Caio Cezar enumera três elementos que potencializaram o problema: aumento das áreas de plantações de banana, crescimento populacional nas cidades afetadas e falta de atuação eficaz dos órgãos responsáveis pela fiscalização.
"Agora, une os fatos de aumento populacional [humana] com amplas áreas de plantações de banana e se tem o resultado perfeito para o fechamento do ciclo de vida da espécie, tendo local de criadouro para os imaturos e alimento disponível para os adultos", explicou.
A Epagri reconhece que a ausência de dados sobre o nível populacional do inseto nos últimos anos impede estimar ou confirmar com precisão o aumento, mas os relatos dos moradores pintam um quadro claro de deterioração progressiva da qualidade de vida na região rural de Ilhota.



